
No extremo norte do Brasil, com desafios históricos de acesso à educação, o Campus Amajari do Instituto Federal de Roraima (CAM/IFRR) celebra um marco que simboliza o poder transformador da escola pública. Mais de 50% dos 57 formandos de 2025 dos cursos técnicos integrados ao ensino médio conquistaram vagas no ensino superior, com pelo menos 30 estudantes aprovados em vestibulares e seletivos de universidades públicas e privadas, muitos deles em mais de um curso. As histórias desses jovens revelam trajetórias de superação marcadas por medo, insegurança e coragem de deixar a família para estudar, apostando na educação como caminho para mudar de vida.

Entre os aprovados está Rennery Guilherme Pinho Rodrigues, de 18 anos, morador do Contão, comunidade localizada dentro da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol, no Município de Pacaraima, no limite com os Municípios de Normandia e Uiramutã. No fim de 2025, ele se tornou técnico em agropecuária e, desde então, acumula conquistas em diferentes instituições. Foi aprovado para cursar Gestão em Saúde Coletiva na Universidade Federal de Roraima (UFRR), conquistou vaga em Medicina Veterinária na Universidade da Amazônia (Unama), por meio da nota do Enem, e atualmente cursa Engenharia Agronômica no Campus Novo Paraíso do Instituto Federal de Roraima.
Outra história de destaque é a de Maria Clara Viana de Alencar, de 17 anos, moradora da região do Tepequém, Município de Amajari. Ela concluiu, em 2025, o curso Técnico em Agropecuária Integrado ao Ensino Médio e comemorou a aprovação ao ingressar em quatro cursos de ensino superior e técnico. Foi aprovada para cursar Medicina Veterinária na Universidade Federal de Roraima (UFRR), Agronomia no Campus Novo Paraíso do IFRR, Técnico em Enfermagem no Campus Boa Vista do IFRR e Zootecnia na Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais. Optou em estudar na federal de Roraima.

A diversidade de trajetórias também aparece na história de Yorgelis Flores, de 19 anos, indígena taurepang venezuelana que vive no Brasil há sete anos. Moradora da Comunidade Indígena Tarau Paru, no Município de Pacaraima, ela enfrentava viagens de duas a três horas de carro — ou até de cinco horas de ônibus — para chegar ao campus. Formada em 2025 no curso Técnico em Agropecuária Integrado ao Ensino Médio, Yorgelis foi aprovada para cursar Relações Internacionais na Universidade Federal de Roraima. Antes de chegar ao Brasil, vivia em Santa Elena de Uairén, na Venezuela, na Comunidade Indígena Sampay.
Mesmo com histórias diferentes, os estudantes compartilham um ponto em comum: a importância da política de permanência estudantil. Muitos precisaram lidar com a saudade da família e a distância das comunidades de origem e destacam que auxílios como moradia e alimentação foram decisivos para que conseguissem permanecer no campus e concluir o ensino médio integrado ao ensino técnico.

Localizado em uma região marcada pela presença de comunidades tradicionais e com mais da metade de seus estudantes autodeclarados indígenas, o Campus Amajari desempenha um papel estratégico na democratização do acesso à educação. A presença de uma instituição federal de ensino no extremo norte do País representa mais do que a oferta de cursos: a oportunidade de emancipação social, inclusão e valorização das identidades culturais. Para muitos jovens da região, chegar ao ensino superior é a prova concreta de que a educação pública pode romper ciclos de desigualdade e abrir novos caminhos para as próximas gerações.
Para a reitora do IFRR, Nilra Jane Filgueira, o resultado alcançado pelo Campus Amajari demonstra a força da educação pública ofertada pela instituição. “Quando mais de 50% dos formandos conseguem ingressar no ensino superior, confirma-se que a escola pública de qualidade tem o poder de transformar trajetórias e ampliar horizontes para a juventude, inclusive para estudantes indígenas e jovens de diferentes origens”, disse.
Para a gestora, a conquista também evidencia o impacto da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica em todo o País ao levar oportunidades, conhecimento e esperança a milhares de jovens. Ela ressalta que histórias como a da estudante indígena e venezuelana aprovada para o curso de Relações Internacionais na Universidade Federal de Roraima demonstram, na prática, como a educação tem potencial real de transformar vidas em diferentes regiões do Brasil.
