Coluna C & T: Os testes funcionais – Daniel Nascimento-e-Silva

Os tipos de testes e retestes são tão variados quanto a variedade de funcionalidades que as tecnologias e seus componentes precisam gerar. Para que isso seja compreendido é necessário considerar que toda tecnologia (assim como todo produto) é um todo constituído de pelo menos duas partes. Cada parte, por exemplo, deve apresentar uma funcionalidade para que o todo possa funcionar. A funcionalidade do todo é composta pela conexão das funcionalidades das partes, de maneira que o funcionamento entregue por uma delas é conectado ao funcionamento da outra, perfazendo o funcionamento total pretendido. As interconexões são responsabilidades dos testes relacionais, que serão vistos mais tarde, de maneira que cabe aos testes e retestes funcionais apenas a garantia de que cada peça, subcomponente, componente e parte funcionem adequadamente, de maneira que possam entregar aos outros subcomponentes, componentes e partes o que é previsto no projeto de inovação tecnológica.

Os testes e retestes funcionais focam aquilo que a tecnologia e suas partes devem fazer. Por essa razão, podem ser sintetizados em três grandes grupos: testes físicos sobre as matérias-primas das peças, testes sobre os funcionamentos das partes (peças, subcomponentes e partes) e testes sobre o funcionamento da tecnologia. Os testes e retestes feitos sobre as peças têm como finalidade garantir que cada uma delas seja constituída com a matéria-prima adequada, de maneira que se garanta a sua funcionalidade, que é materializada pela especificação de alguma entrega para o subcomponente de que faz parte. Por exemplo, o assento de um veículo tem um invólucro, que pode ser confeccionado com couro, tecido, plástico ou outro tipo de matéria-prima. Qualquer que seja ela, precisa garantir ao subcomponente assento a sua funcionalidade. Por exemplo, não pode ser danificado antes de determinado lapso de tempo, não deve ser deslizante e não pode evitar determinados movimentos do corpo, dentre outras exigências de funcionalidade. Para cada exigência é necessário que seja realizado pelo menos um teste para aferir se a funcionalidade desejada está sendo entregue.

Os tipos de restes e retestes relativos às peças visam, portanto, aferir se sua composição está em conformidade com a funcionalidade desejada. Dentre os tipos de testes e retestes mais comuns estão os de resistência, durabilidade e precisão que, por sua vez, podem ser divididos em testes e retestes físicos, químicos, microbiológicos e físico-químicos, dentre outros. Note-se que esses são também testes de composição da matéria-prima, que busca se certificar de que ela é a mais adequada para que a peça seja por ela produzida. Eles são, também, testes físicos, que podem tomar a forma de teste de atração, dureza, elasticidade e flexão, por exemplo, verificando o funcionamento de metais, polímeros, borrachas e plásticos, dentre outros, em determinada peça da tecnologia. Há também os testes químicos, centrados na composição química do material, determinando a pureza, concentração e contaminantes apropriados. Os testes microbiológicos visam à identificação de microorganismos que podem prejudicar ou favorecer o material, em conformidade com o funcionamento desejado, enquanto os testes físico-químicos estão voltados para as propriedades do material, como pH, umidade e viscosidade, dentre outros.

O que queremos mostrar é que os materiais escolhidos para a confecção das peças das tecnologias precisam ser testados nas suas conformidades relativas àquilo que deles se espera. Um parafuso não é apenas um material que une uma parte à outra, mas um componente que tem como finalidade assegurar o funcionamento de determinado componente por um determinado período de tempo ou durante uma certa quantidade de seu funcionamento ou operação. Para que esse funcionamento se efetive, é necessário que ele seja revestido de uma série de características passíveis de serem testadas, para aferir a sua conformidade; se não estiver em conformidade, a peça precisa ser refeita, inclusive com a troca do material, o que representa, por exemplo, a substituição de um metal por outro e até por outro tipo de material.

As peças formam um subcomponente, que é uma parte de um componente. Se um motor é uma parte de um automóvel, o pistão pode ser visto como um subcomponente. A biela, por sua vez, é uma peça que compõe o subcomponente pistão. Os testes e retestes de subcomponentes representam a parte mínima de um mecanismo ou engrenagem que produz um resultado específico. Esse funcionamento mínimo precisa ser testado e aferida a sua conformidade com aquilo que dele é esperado, ou seja, aquilo que ele vai entregar ou provocar sobre outro subcomponente. O teste do subcomponente, na verdade, é testar para se certificar que ele, o subcomponente, faz o que ele efetivamente tem que fazer. Se não fizer, precisa ser corrigido, para que um novo teste possa ser feito, até que a conformidade desejada seja alcançada. O mesmo procedimento deve ser feito em relação ao componente, que é a somatória dos subcomponentes, que também precisa fazer o que dele se espera. Em seguida, testa-se o funcionamento da parte, que é a maior unidade componente da tecnologia. Nos automóveis têm-se as partes mecânicas, elétricas, eletrônicas etc. É nesta última fase que são testadas as funcionalidades da tecnologia, que é para se certificar que ela está entregando os benefícios que dela se espera.

Os testes de funcionalidade são um grande desafio para os cientistas, principalmente quando a tecnologia que se quer criar é muito complexa. Entenda-se complexidade como a quantidade de partes, componentes, subcomponentes e peças que compõem o artefato. Há artefatos muito simples, com algumas poucas dezenas de peças e poucos componentes, assim como há aqueles que chegam a ter centenas de milhares, como é o caso de um chip de computador, que chega a ter milhões de componentes eletrônicos microscópicos. Ainda assim, para que se tenha a garantia de que a tecnologia resultante vai entregar os benefícios esperados, é necessário que cada um deles seja testado e considerado em conformidade com aquilo que é desejado.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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