
A acessibilidade é um fenômeno muitas vezes confundida em permitir que uma pessoa com mobilidade ou capacidade física reduzida ter acesso a um determinado ambiente. Inicialmente, vale dizer que essa é uma concepção adequada, coerente e consistente. Mas é extremamente limitada. Acessibilidade é isso e mais uma série de outras faculdades já mapeadas pela ciência. Essa multiplicidade de demandas exige atenção dos cientistas para que possam planejar, executar e avaliar os resultados de testes e retestes para dar conta das acessibilidades que seus protótipos precisam atender. A razão dessa preocupação é que a falta de acessibilidade pode comprometer as possibilidades de sucesso da tecnologia que está sendo gerada, principalmente se se levar em consideração que é justamente a acessibilidade uma das dimensões tecnológicas geralmente esquecidas. Afinal, acessibilidade não pode mais ser confundida apenas com a possibilidade de a tecnologia ser utilizada por pessoas com deficiência.
Um dos aspectos que os testes de acessibilidade diz respeito à possibilidade efetiva de que pessoas que fazem parte dos públicos-alvos (e dos que não o são) possam se beneficiar de certos tipos de produtos ou serviços. É isso mesmo: a garantia de benefícios é uma forma de garantir a acessibilidade. É o caso, por exemplo, de uma tecnologia educacional direcionada para uma determinada área para ser utilizada por estudantes do ensino básico daquela cidade, nos momentos que não estiverem sendo utilizadas pelos estudantes, puder ser utilizada por outras pessoas. É perfeitamente possível, aqui, perceber que a acessibilidade está vinculada com necessidade.
Outra forma de acessibilidade diz respeito à possibilidade de envolvimento. O envolvimento diz respeito ao relacionamento que uma ou mais pessoas mantêm ou podem manter com outras pessoas ou tecnologias. Os testes de acessibilidade podem mirar várias maneiras de envolvimento do protótipo e da tecnologia com as pessoas e seus públicos-alvos, mas todas elas precisam estar centradas no ambiente em que esse envolvimento vai ser realizado. Se físico, os testes devem dar conta do transporte e movimentação da tecnologia ou das pessoas; se extrafísico ou virtual, os meios precisam ser planejados e testados em sua eficiência (facilidade) e eficácia (alcance do acesso).
Acessibilidade também é equivalente à facilidade, tanto de chegar em determinado ambiente onde está localizada e disponível determinada tecnologia, quanto no seu usufruto. Aqui três coisas precisam estar claras para que os testes de acessibilidade possam ser considerados válidos e efetivos. A primeira é disponibilidade dos meios e dos caminhos que levam à tecnologia ou aos protótipos, constituindo a acessibilidade de transporte; a segunda é a facilidade com que esses caminhos e os meios disponíveis garantem o acesso, uma vez que pode haver muitos meios disponíveis, mas que não são fáceis de utilizar ou de trilhá-los ou utilizá-los; e a terceira é a garantia de que, ao ter acesso ao ambiente e/ou à tecnologia, as pessoas aufiram os seus benefícios, dado que não tem muita relevância ter acessibilidade de transporte, acessibilidade de facilidade e não ter acessibilidade de usufruto.
Há muitos casos de inovações tecnológicas em unidades de saúde que não cumprem todos os ditames da acessibilidade. Em uma dessas unidades, os exames ressonância e ultrassonografia tinham a potencialidade de reduzir em vários meses e até em anos o tempo que as tecnologias anteriores levavam para apresentar os relatórios e laudos aos médicos demandantes. O interessante é que quase tudo foi devida e meticulosamente planejado: havia a acessibilidade de transporte, com ambulâncias, cadeiras de rodas, macas e as devidas adaptações ambientais internas, como rampas e elevadores; havia a facilidade de chamar e chegar as ambulâncias, assim como todos os recursos de acessibilidade interna na unidade de saúde; e havia as máquinas e equipamentos ultramodernos, capazes de apresentar alternativas de soluções às mais diversas patologias. Mas uma coisa foi esquecida: não havia especialistas para operar as máquinas. Durante alguns anos os equipamentos ficaram inoperantes e, quando apareceram os especialistas, as máquinas já estavam defeituosas por falta de manutenção.
Outro aspecto fundamental da acessibilidade é em relação às informações. Em termos tecnológicos, é um dos itens obrigatórios dos testes de acessibilidade, medida através da oportunidade que é dada a qualquer pessoa de ter as mesmas informações acerca de todos os aspectos que considerar importante, o que inclui os materiais utilizados em seus componentes para saber o grau de periculosidade, por exemplo, que possam apresentar, assim como manutenções, atualizações, validade, cuidados e muito mais. Ainda no campo informacional está o aspecto interacional, que diz respeito às diferentes maneiras através das quais as pessoas podem contatar e serem atendidas pelos responsáveis pela tecnologia, mas não como os serviços de atendimento aos clientes (SAC), mas como força de acessibilidade, de interação, não apenas de comunicação de algum problema ou solicitação de orientações. E o terceiro diz respeito às informações acerca dos usufrutos dos mesmos serviços por todas as pessoas e públicos-alvos, de maneira eficiente (da melhor maneira) e com a garantia da acessibilidade (eficácia).
Há quem considere que a acessibilidade é do campo da potencialidade. Potencialidade diz respeito à probabilidade, a alguma chance de alguma coisa acontecer. Trazendo essa compreensão para o campo da acessibilidade, muita gente considera que a acessibilidade é algo que pode acontecer, que tem grande chance de ocorrer, como no caso de as pessoas terem chances de chegar em uma unidade de saúde, percorrerem suas diversas subunidades e saírem de lá satisfeitas. Mas não é isso o que a ciência e as leis definem. A acessibilidade não é potencialidade para as leis e para a ciência, mas efetividade. Efetividade significa a garantia de que algo vai acontecer, com chances praticamente zero de não ocorrer e, na hipótese dessa chance acontecer, ter sempre um plano B para executar. Se a lei garante que as pessoas idosas sejam atendidas primeiramente, essa garantia só será efetivada como acessibilidade se houver 100% de chance de isso acontecer. Na prática, toda vez que aparecer uma pessoa idosa, ela automaticamente será colocada para ser atendida. Os testes de acessibilidade precisam medir isso: a garantia efetiva do acesso.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)
