Coluna C & T: Testes de desempenho – Daniel Nascimento-e-Silva

Os testes de desempenho são essenciais para que um protótipo possa alcançar a posição de tecnologia. Paradoxalmente, esses testes são muito pouco realizados, em se tratando de esforços sistemáticos para a entrega de tecnologias que sejam, ao mesmo tempo, eficientes e eficazes, constituindo aquilo que chamamos de efetividade. Talvez o maior obstáculo que se tem percebido em relação à execução de testes de desempenho na geração de tecnologia é o desconhecimento do desempenho, o que ele é, no que ele consiste e com o que está relacionado. É certo que desempenho é alcance de resultados, mas não de qualquer forma, não com quaisquer meios. O desempenho é sistemático quando relacionado com as quatro funções gerenciais (planejamento, organização, direção e controle), de maneira que é uma consequência das suas aplicações. Isso significa que fazer testes de desempenho implica em executar as quatro funções porque delas emergem aspectos fundamentais para a tomada de decisão sobre diversas variáveis que afetam decisivamente o sucesso da futura tecnologia.

O desempenho é sistematizado quando vinculado a objetivos (situações futuras desejadas) e metas (quantificação dos objetivos). Qualquer objetivo ou meta consome recursos de várias naturezas (que precisam ser organizados e quantificados), manuseados por pessoas ou máquinas inteligentes, seguindo indicadores orientadores das suas execuções. As funções gerenciais definem, portanto, os objetivos e metas a serem alcançados (planejamento), os recursos a serem utilizados (organização), a força inteligente a ser aplicada (direção) e o roteiro de acompanhamento e retificações da sua execução (controle). O desempenho está vinculado a todas elas, desde a criação do protótipo até a entrega da tecnologia testada e aprovada. O desempenho afere exatamente os resultados dos testes e a sua consequente avaliação, se aprovada ou não.

Disso resulta que os testes de desempenho sempre terão duas naturezas: uma quantitativa e outra qualitativa, essencialmente separadas, mas interrelacionadas. A dimensão quantitativa é oriunda das metas, que necessariamente têm que apresentar uma quantidade definida a alcançada e um tempo na qual essa quantidade deverá ser materializada. Tempos e quantidades são fenômenos medidos estritamente em números. A dimensão qualitativa também é paradoxal: embora a palavra qualidade dê a impressão de ausência de número ou qualquer esforço de quantificação, a prática mostra exatamente o contrário, porque a aferição da qualidade só é possível a partir de números, de quantificações. A razão disso é que a qualidade é um fenômeno comparativo entre um indicador ou um padrão e aquilo que efetivamente foi feito. Por exemplo, se a meta a ser alcançada é de 60% de eficácia de um medicamento, mas se o padrão disser que 50% é o mínimo aceitável, é feita a mensuração (que é a obtenção de um número) para que o seu resultado seja comparado com o padrão (que é também um número) e, a partir daí, surgir a avaliação, o julgamento, enfim, a apuração da qualidade: se estiver dentro do padrão, aprovado; se estiver fora, reprovado. A qualidade é justamente a palavra “aprovado” ou “reprovado”, mas como representação fiel de comparações de números. Os testes de desempenho, portanto, são um processo constituídos pelas etapas de planejamento, definição dos indicadores ou padrões, determinação dos instrumentos e procedimentos de mensuração, execução da mensuração, avaliação e replanejamento ou melhoria contínua.

Eficiência e eficácia são as duas dimensões aferidas no desempenho de um protótipo. O termo eficiência significa, na linguagem popular, “a melhor forma” de se fazer alguma coisa. É uma palavra que está diretamente ligada à ideia de racionalidade em toda a sua plenitude. Quando um processo é executado com o menor número possível de atividades, ele é chamado de eficiente; quando uma tecnologia é constituída pelo menor número possível de peças e componentes, ela também é chamada de eficiente; se um protótipo consome o menor número possível de recursos, ele também é considerado um artefato eficiente. O que devemos compreender, portanto, é que a eficiência também é um número constituído por pelo menos dois outros. Um desses números é aquilo em que se quer aferir a eficiência e o outro é a quantidade total mensurada, que pode ser sintetizada na divisão da entrada pela saída máxima. Por exemplo, se o tempo padrão para reproduzir uma tecnologia é de 40 minutos e o tempo de reprodução executado for de 20 minutos, a eficiência é a divisão de 20/40×100, o que gera como resultado 50%, que é a taxa de eficiência, que precisa ser comparada com um padrão para gerar o resultado qualitativo.

A eficácia é a outra parte dos testes de desempenho. Esse termo também pode ser sintetizado na linguagem popular de “alcançar o objetivo”, fazer aquilo que foi determinado, enfim, gerar o resultado pretendido. A ciência considera a eficácia como uma extensão, um continuum, palavras que significam uma ampla gama de possibilidades. Traduzindo novamente para uma linguagem popular, isoladamente, não importa “como” o resultado foi alcançado, o que importa é que ele aconteceu. Por exemplo, se o objetivo era correr 50 quilômetros em um dia e três pessoas conseguiram correr essa distância em 24 horas, o resultado foi alcançado. Não importa, aqui, se o indivíduo A levou 3 horas para chegar e o indivíduo B levou 23 horas: o que importa é a corrida no tempo, que é o padrão determinado.

Eficiência e eficácia são dois lados da mesma moeda nos testes de desempenho. Isso significa que elas não podem ser realizadas separadamente. A eficiência deve acontecer sem prejudicar a eficácia, da mesma forma que a eficácia deve acontecer sem comprometer a eficiência. De que adianta correr 50 quilômetros em 3 horas, se ao chegar o indivíduo está quase morto? De que adianta executar uma produção na metade do tempo, se o produto ficar defeituoso? Os testes de desempenho medem exatamente isso: fazer efetivamente aquilo que tem que ser feito, mas com a qualidade esperada, que é justamente o grau de eficiência esperado.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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