Coluna C & T: Testes e retestes processuais – Daniel Nascimento-e-Silva

Um processo é considerado todo sequenciamento de eventos que culmina em um determinado produto ou resultado. Esse esquema lógico-conceitual determina e orienta os testes e retestes que precisam ser aplicados aos protótipos para que possam alcançar a posição de tecnologias. Os testes e retestes podem começar, prioritariamente, pelos resultados. A razão é relativamente simples de ser compreendida: assim como os testes funcionais, os testes e retestes processuais precisam, primeiro, garantir que os resultados previstos efetivamente sejam auferidos. Se não forem, as etapas dos processos em desconformidade precisam ser alteradas. A finalidade, portanto, é que os resultados sejam gerados, esta é a primeira preocupação dos testes processuais. Depois que os resultados aparecerem, outros testes e retestes precisam ser executados, agora com a finalidade de fazer com que o desempenho esteja de acordo com o que foi previsto. Esses procedimentos devem ser feitos e refeitos até que o grau de conformidade desejado seja alcançado. Em síntese, a lógica que ordena e fundamenta os testes de processos é, primeiro, fazer, para em seguida fazer bem e, finalmente, fazer melhor.

A geração de tecnologias pode ser vista como um sucedâneo de pequenas produções que se alimentam de forma gradativa até que se obtenha o estágio final planejado. Em termos de analogia, é como fazer um churrasco. A primeira etapa poderia ser elaborar uma lista de produtos e serviços necessários para alcançar o objetivo final pretendido; a segunda poderia ser obter o dinheiro necessário para a compra desses itens; a terceira, a compra efetiva dos materiais e serviços; e assim sucessivamente, sendo a última a realização do churrasco. Este exemplo mostra que uma etapa necessita da anterior porque é o resultado do que foi feito antes que vai alimentar a execução da etapa atual que, por sua vez, vai ser entregue à etapa posterior. Esse esquema é muitas vezes chamado de cliente-fornecedor porque alguém produz (o fornecedor) para entregar para outro alguém (o cliente) que, por sua vez, vai fazer a sua produção e entregar para outro, até que todo o processo se complete.

Os testes e retestes processuais visam garantir, primeiro, que cada etapa está efetivamente fazendo a sua produção e entregando para a etapa seguinte de forma adequada. Os testes, então, se voltam para a forma como as atividades são executadas, os recursos que elas utilizam para fazer a sua produção, o nível de qualidade que a produção deve apresentar e a forma como essa produção é entregue para a etapa seguinte. É muito importante alinhavar que também os testes e retestes de processos não focam nenhum aspecto humano, das pessoas que executam as atividades. No nosso exemplo, se uma etapa é a de aquisição de temperos, deve haver um teste para checar se todos os itens da lista de materiais foram adquiridos. A falta de um deles atesta desconformidade, o que exige (ou não, veremos) ajustes e reajustes. O primeiro desafio, portanto, é este: garantir o resultado pretendido na etapa.

A segunda parte ou conjunto de testes, depois de garantido o resultado pretendido, se voltam para o aprimoramento do resultado parcial, que é todo resultado de cada etapa. Aliás, é por isso que cada produto desse é chamado de produto semielaborado, produto em processo ou produto em elaboração, que pode ser traduzido por tecnologia semielaborada, tecnologia em processo ou tecnologia em elaboração. Outra analogia ajuda a esclarecer isso. Digamos que o primeiro teste de um protótipo seja garantir que a temperatura esteja sendo medida. Fazem-se, portanto, os testes e tem-se como resultado “400 quilos”. Esse resultado mostra que a tecnologia não está medindo o que ela deveria medir. Avaliam-se as etapas do processo para que seja encontrada a etapa que está gerando a desconformidade. Encontrada, fazem-se os ajustes e voltam-se aos testes. O novo resultado aponta “1.500 graus” em temperatura ambiente. Daí a equipe de cientistas festeja o resultado porque tem a garantia de que a tecnologia está entregando aquilo que foi pretendido: a medida de temperatura.

Mas alguém poderia contestar, com toda razão, que o resultado estava errado. Afinal, a temperatura ambiente não era aquela. Para os cientistas, as coisas são feitas por partes, por etapa, por processo. A primeira preocupação é garantir que a coisa funciona; depois é que ela é ajustada. O funcionamento é dito “validade” porque o protótipo está medindo temperatura, e não mais quilogramas e metros cúbicos, como aferido nos testes anteriores. A segunda preocupação é com o fazer bem, a mensuração adequada da temperatura, quando novos ajustes são feitos nas etapas de produção da tecnologia, sucedidos de novos testes, até que o resultado pretendido nessa segunda etapa seja garantido, que é medir sempre da mesma forma, que os cientistas chamam de “fidedignidade”. Dessa forma, os conjuntos de testes e retestes processuais a que os protótipos devem ser submetidos têm como finalidade, em última análise, a garantia da validade da tecnologia (fazer o que dela se espera), assim como a sua fidedignidade, ser confiável (que é fazer sempre da mesma forma).

Quando fidedignidade e validade estão garantidas, uma nova sequência de testes e retestes pode ser executada, com o sentido de tornar a tecnologia ainda melhor. Geralmente esses testes são executados nas fases finais de prototipagem, tendo como foco outros aspectos, como satisfação dos clientes, cadeia logística, preços de venda, conformidade com a legislação e assim por diante. Daí advêm uma série de decisões que conectam as atividades dos cientistas com outros atores do mercado tecnológico, o que sinaliza e fundamenta a necessidade dos aprimoramentos contínuos das tecnologias, assim como as suas atualizações, muito comuns nos softwares e aplicativos, mas pouco percebidos em quase todos os tipos de produtos e tecnologias, que geralmente recebe o nome técnico de melhoria contínua. Resumindo: os testes de processos se encarregam de melhorar continuamente os produtos e tecnologias que usamos todos os dias.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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