
A conquista de vagas em universidades públicas marcou o fim de um ciclo desafiador para estudantes formados no Campus Amajari do Instituto Federal de Roraima (CAM/IFRR). Entre rotina intensa de estudos, distância da família e dificuldades de adaptação ao ensino técnico integrado e integral, jovens que chegaram a pensar em desistir comemoram hoje aprovações em mais de uma instituição de ensino superior, transformando esforço e persistência em novas oportunidades de vida.
Um dos exemplos é o estudante Rennery Guilherme Pinho Rodrigues, de 18 anos, morador do Contão, comunidade localizada dentro da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol, Município de Pacaraima, no limite com os Municípios de Normandia e Uiramutã. Formado no curso Técnico Agrícola Integrado ao Ensino Médio, ele conquistou aprovações em várias instituições: na Universidade Federal de Roraima (UFRR), para cursar Gestão e Saúde Coletiva; na Universidade da Amazônia (Unama) conquistou vaga com a nota do Enem para cursar Medicina Veterinária; e no Instituto Federal de Roraima/Campus Novo Paraíso, onde cursa Engenharia Agronômica.
Rennery conta que sempre sonhou em entrar em uma universidade, mas que também carregava o medo de concluir o ensino médio sem conseguir aprovação. A rotina no campus exigia disciplina e dedicação em tempo integral, e um dos maiores desafios foi viver longe da família durante os três anos de curso, período em que permaneceu no alojamento estudantil. Houve momentos em que pensou em desistir, principalmente pela saudade de casa, mas encontrou apoio em professores, colegas e, principalmente, na mãe, que sempre acreditou na força transformadora da educação.

Criado por uma mãe que enfrentou dificuldades para sustentar ele e mais dois filhos sozinha, Rennery afirma que cada conquista é também uma forma de retribuir o esforço dela. Ver a emoção da mãe ao receber a notícia das aprovações foi, segundo ele, um dos momentos mais marcantes da sua trajetória. “Porque ver a felicidade da minha mãe, assim, não tem preço. Ela sempre lutou sozinha para criar a mim e meus irmãos enfrentando diversas dificuldades, mas nunca deixou de acreditar que a educação poderia transformar nossas vidas. E ver o orgulho e a emoção dela naquele momento foi algo que me tocou profundamente. Aquela conquista não era apenas minha, mas também dela. Na verdade, tudo que eu conquistei até aqui é uma forma de retribuir todo o esforço, amor e cuidado que ela teve ao longo da vida para nos criar”, desabafou.
A história de Maria Clara Viana de Alencar, de 17 anos, também reflete a determinação de quem decidiu persistir apesar das dificuldades. Formada no curso Técnico em Agropecuária Integrado ao Ensino Médio e a primeira da família a entrar em uma universidade federal, ela conquistou a aprovação para ingressar em quatro cursos superiores e técnico: Medicina Veterinária, na Universidade Federal de Roraima (UFRR), pelo qual optou; Agronomia, no Campus Novo Paraíso do IFRR; Técnico em Enfermagem, no Campus Boa Vista do IFRR; e Zootecnia, na Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais.

Nascida em Boa Vista e criada na região do Tepequém, no Município de Amajari, Maria Clara conta que, desde pequena, sempre ouviu falar do Instituto Federal como uma instituição de referência e decidiu que queria estudar ali. No entanto, a adaptação ao ensino integral e à rotina intensa não foi fácil. Logo na primeira semana no campus, longe de casa e da família, ela chegou a ligar para a mãe pedindo para sair da escola. Foi justamente a mãe quem a incentivou a permanecer e seguir em frente.
Com o passar do tempo, Maria Clara se adaptou à rotina de estudos, fez amizades e descobriu novos interesses profissionais. Durante as aulas práticas e as disciplinas do curso técnico, surgiu o interesse pela área de Medicina Veterinária, despertado especialmente pelas atividades ligadas à produção animal.

A estudante afirma que os auxílios estudantis e a possibilidade de morar no alojamento foram fundamentais para que pudesse permanecer no curso, já que a família não teria condições de custear moradia e alimentação fora do campus. “Foi muito importante eu receber esses auxílios para a minha permanência porque a minha família não teria condições de me sustentar, comprar ou alugar uma casa e ainda comprar comida. Seria muito gasto, e isso foi bastante importante para eu poder concluir o meu curso”, analisou a estudante.
Questionada sobre o que mais a marcou ao longo da caminhada no IFRR, Maria Clara explica que a experiência a fez compreender que o alcance de seus sonhos dependia principalmente de sua dedicação. “Eu entendi que precisava me empenhar de verdade para conquistar aquilo que eu queria. Foi assim que passei a reconhecer meus objetivos, perceber no que precisava melhorar e me dedicar ainda mais aos estudos. O primeiro grande resultado desse esforço foi a aprovação na universidade”, contou.
Assim como Rennery, o momento da aprovação foi vivido com emoção e orgulho familiar. Maria Clara lembra que a felicidade da mãe ao receber a notícia foi uma das maiores recompensas de todo o esforço dedicado aos estudos. “Eu consegui ver a felicidade, principalmente da minha mãe, que postou a notícia em todos os lugares onde era possível falar para todo mundo. Isso foi uma das melhores sensações”, lembrou a jovem, que destaca que a aprovação em uma universidade pública representa não apenas uma conquista pessoal, mas também o resultado do incentivo e da confiança da família ao longo de toda a sua trajetória.
Histórias como as de Rennery e Maria Clara revelam a realidade de muitos estudantes que enfrentam desafios para concluir o ensino médio técnico integral e alcançar o ensino superior. Entre saudade de casa, adaptação a uma rotina exigente e dúvidas sobre continuar ou não, o apoio da família — especialmente das mães — foi decisivo para que esses jovens seguissem estudando e transformassem sonhos em conquistas concretas.
