HU-UFRR celebra um ano da Unidade de Retaguarda Hospitalar dos Povos Indígenas

Pioneira no país, a URHPI dispõe de uma unidade de clínica médica exclusiva para atendimento aos povos originários. – Foto: Arquivo || Nilzete Franco

No mês dos Povos Indígenas, a Unidade de Retaguarda Hospitalar dos Povos Indígenas do Hospital Universitário da Universidade Federal de Roraima, vinculado à Rede HU Brasil, comemorou seu primeiro ano. Pioneira no país, a URHPI dispõe de uma unidade de clínica médica exclusiva para atendimento aos povos originários, estruturada para garantir um cuidado mais humanizado, respeitoso e alinhado às tradições e necessidades de cada paciente.

Em um ano, cerca de 500 pacientes foram internados na URHPI. Uma delas é Cecília Austin, de 81 anos, indígena wapichana da Terra Indígena Malacacheta, no município do Cantá. Internada há três semanas, com dores no abdômen, a paciente é acompanhada por uma das filhas, Lúcia de Paula Pereira. “Aqui os profissionais conversam, sorriem. Nunca vi ignorância. A gente chama, e eles vêm”, diz Lúcia.

Além dos wapichana, a unidade atende outras 14 etnias, inclusive as de recente contato, como yanonami e ye’kwana, e de origem venezuelana, como warao e eñepá, incorporando práticas culturais ao cuidado. É o que explica a enfermeira Marcelle Collyer, chefe da URHPI e coordenadora do Comitê de Saúde Indígena do HU-UFRR: “Viabilizamos um modelo que alia ciência e respeito às tradições, possibilitando a realização de rituais tradicionais, a exemplo do ‘xapiri’, com a participação de pajés, xamãs e familiares. Protocolos também orientam situações sensíveis, como o manejo pós-óbito, sempre com foco na dignidade e no respeito cultural”.

Trabalho em parceria

Um dos vários órgãos parceiros da Unidade de Retaguarda é a Casa de Saúde Indígena (Casai) Yanomami, onde o enfermeiro Gracione da Silva Santos atua no agendamento dos exames e consultas dos pacientes. “Eu trabalho com indígenas há muito tempo, e é a primeira vez que tem uma abertura tão grande de um hospital para essa população. Na minha avaliação, o HU não é nem nota 10, é nota 11”, avalia.

Para o enfermeiro, o atendimento humanizado ofertado na URHPI contribui para a aceitação da permanência do paciente no hospital. “Nós temos indígenas que já ficaram mais de dois meses dentro do HU, e é muito difícil a gente conseguir que o indígena fique um período tão grande assim internado. Essa maneira acolhedora de tratar os pacientes indígenas faz muita diferença”, diz.

Confiança no “parente”

Nascido e criado na comunidade indígena da Barata, no município de Alto Alegre, Acleilton Cordeiro da Silva é indígena wapichana e atua como técnico em Enfermagem na Unidade de Retaguarda Hospitalar dos Povos Indígenas do HU-UFRR desde agosto de 2025.

Mas a trajetória de Acleilton na saúde começou bem antes. E com desafios. “Eu era agente comunitário de saúde e, em um treinamento, uma colega falou que o curso de técnico em Enfermagem estava aberto. Eu perguntei da nossa enfermeira responsável se eu seria um bom profissional na área técnica, e ela respondeu ‘tirando você, todo mundo aqui tem personalidade para fazer’. Eu até brinquei com ela, disse que ia fazer o curso e mostrar que era capaz”, conta. “Fiz o curso, e ela me pediu desculpa. E eu agradeço muito a ela, que me incentivou, mesmo da forma que foi”, relembra.

Em 2009, Acleilton foi selecionado para trabalhar na Terra Indígena Yanomami e depois no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Leste. “Quando entrei para o quadro do Estado, em 2013, eu deixei a saúde indígena, mas entre aspas. Porque um ano depois eu fui trabalhar na Unidade Mista Bom Samaritano, na [comunidade da] Barata. Lá eu atendia indígenas e não indígenas”, diz.

Agora, atuando na URHPI, Acleilton voltou a atender exclusivamente pacientes indígenas. “Para mim, é uma honra trabalhar na Unidade de Retaguarda. Quando eu entrei aqui e me vi trabalhando com eles, foi como se passasse um filme da minha vida. Eu enxergo a URHPI como um avanço na área da saúde, principalmente para os povos originários menos assistidos, como os yanomami e os ye’kwana. É muito emocionante a gente ter uma unidade apropriada só para os cuidados com os indígenas”, comemora.

Acleilton acredita que os pacientes se sentem acolhidos quando o profissional de saúde é um “parente”. “A gente tem que transmitir confiança e segurança, em especial aos yanomami e aos ye’kwana, que são mais retraídos. Então, se eles não confiarem, vão ficar caladinhos, só balançando a cabeça. Mesmo com a barreira linguística, a gente supera essas dificuldades e vai se entendendo”, relata.

Sobre a HU Brasil

O Hospital Universitário da Universidade Federal de Roraima faz parte da Rede HU Brasil desde 2024. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.

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