
A trajetória de superação da estudante Yorgelis Flores, de 19 anos, formada no curso Técnico em Agropecuária Integrado ao Ensino Médio do Campus Amajari, resultou em uma conquista que simboliza mais do que uma aprovação universitária. Indígena da etnia Taurepang e natural da Venezuela, ela foi aprovada para cursar Relações Internacionais na Universidade Federal de Roraima (UFRR), tornando-se a primeira pessoa de sua família a ingressar em uma universidade federal.
Emocionada com o resultado, Yorgelis afirma que o caminho até a aprovação foi marcado por desafios. Nascida na Comunidade Indígena Sampay, na região de Santa Elena, na Venezuela, ela chegou ao Brasil há cerca de sete anos com a família. Atualmente, mora na Comunidade Indígena Tarau Paru, próxima ao Município de Pacaraima, em Roraima, onde concluiu o ensino fundamental antes de ingressar no IFRR. Com a família composta pelo pai, pela mãe e por uma irmã, ela é a primeira da família a entrar em uma universidade federal.
Cursar o ensino médio integrado ao técnico em regime integral foi uma experiência intensa. Segundo a estudante, a rotina exigia dedicação durante todo o dia, com aulas teóricas, atividades práticas e muitos trabalhos. A distância da família foi um dos maiores desafios. Sem condições financeiras para viajar com frequência, ela, muitas vezes, só conseguia visitar os parentes quando havia transporte disponibilizado pelo instituto, o que a fez passar longos períodos longe de casa.
Dificuldades com o idioma também marcaram a trajetória. Ao chegar ao Brasil, Yorgelis precisou se adaptar à língua portuguesa e ao sistema educacional brasileiro. No campus, compreender as aulas e apresentar seminários em outra língua foi um grande obstáculo, superado com esforço pessoal e apoio de professores e colegas. Mesmo em momentos de desânimo, como a saudade da família e a fase de adaptação, ela lembra que o sonho de ingressar na universidade era o que a motivava a continuar.

Para se manter na escola em tempo integral, precisou do apoio da assistência estudantil oferecida pela instituição. Durante o curso, Yorgelis contou com alojamento e auxílios como alimentação e transporte, fundamentais para que pudesse permanecer no campus e seguir estudando longe da família. “Esse apoio foi muito importante, porque me ajudou a continuar estudando mesmo estando longe da minha família, já que eu não tinha condições financeiras para pagar moradia e alimentação”, relatou.
A escolha pelo curso de Relações Internacionais também tem um significado especial. A estudante revela que sempre teve interesse em aprender sobre diferentes países e culturas e que deseja trabalhar ajudando pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, especialmente em comunidades indígenas. “E uma das comunidades [que pretende ajudar] é onde estou morando”, comentou. A decisão, segundo ela, está diretamente ligada à própria história e às experiências vividas entre dois países e diferentes realidades sociais.
O momento da aprovação foi de grande emoção. Ao receber a notícia, Yorgelis celebrou com a família, que acompanhou de perto sua jornada e se orgulha da conquista. Apesar da vaga garantida na universidade, ela ainda enfrenta dificuldades financeiras para iniciar o curso. Trabalha para conseguir pagar alimentação e moradia enquanto busca meios de continuar os estudos.
Mesmo diante das dificuldades, a estudante mantém o sonho de concluir a graduação, conquistar um bom trabalho e ajudar sua família e outras comunidades. Aos estudantes que iniciam a formação técnica ela deixa uma mensagem simples e direta: não desistir. Para Yorgelis, acreditar nos próprios objetivos e aproveitar as oportunidades de estudo são passos essenciais para se transformar a própria realidade.
