
Diante das projeções de centros meteorológicos que indicam a possível formação de um “super El Niño”, fenômeno climático marcado pelo aquecimento superior a 2ºC no oceano Pacífico, e que deve causar calor extremo e estiagem severa na região Norte do Brasil, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) promoveu oficinas de Educação Ambiental para indígenas da etnia Macuxi, na Terra Indígena (TI) Santa Inês, em Roraima.
O El Niño deste ano poderá ser o mais intenso em 140 anos, segundo as projeções. A região que poderá ser afetada pelo fenômeno na TI abrange cerca de 30 mil hectares e concentra duas comunidades indígenas: Leão de Ouro e Santa Inês.
As oficinas do Ibama foram realizadas pela Equipe de Educação Ambiental (EEA) local do Instituto, junto com o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) e em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Educação Ambiental
O uso do fogo nas roças é uma prática cultural dos indígenas. Porém, em 2024, ocorreram incêndios florestais que atingiram diretamente cultivos de mandioca, milho e outros alimentos de subsistência das comunidades. O indígena Carlos Santana Macuxi relatou que o fogo também prejudicou a caça. “As nossas roças foram destruídas, os animais morreram queimados, acabou a nossa caça. Foi preciso ajuda dos órgãos públicos para fornecer cesta básica para as nossas famílias”, declarou o indígena da comunidade Santa Inês.
As terras indígenas são áreas de alta biodiversidade, e sua proteção é fundamental para a conservação da floresta, da fauna e ecossistemas. Por isso a importância de alertar os povos sobre o desequilíbrio do clima e prepará-los para se adaptarem aos eventos extremos que podem causar danos ambientais, como seca dos rios, destruição de habitats, emissão de gases de efeito estufa que pode piorar a qualidade do ar e ainda afetar severamente a saúde humana. “Essas oficinas educacionais são importantes para esclarecer, de forma didática, o que está causando o desequilíbrio climático, as consequências para as populações mais vulneráveis e o que fazer para se adaptarem a uma nova onda de calor”, explicou a técnica da equipe de Educação Ambiental do Ibama, Airlene Carvalho.
Resíduos
O metano é um dos gases de efeito estufa emitido para a atmosfera quando o lixo é queimado. Além disso, pode ser uma fonte de ignição para incêndios florestais. Uma das soluções é reduzir o descarte de embalagens no lixo comum e reaproveitá-las. A oficina de produção de artesanato com materiais recicláveis é uma ferramenta que une sustentabilidade e expressão artística, estimulando diretamente a criatividade e a reflexão sobre o consumo consciente. Esse processo transforma resíduos (como garrafas PET, papelão e latas) em novos produtos, reduzindo o impacto ambiental e educando sobre o ciclo de vida dos materiais. “Essa oficina foi muito boa para diminuir o volume de lixo na nossa comunidade. Se todos fizerem a sua parte, não precisaremos descartar o que pode ser útil pra gente”, disse Gislayne Gino Macuxi, que fez do plástico e papelão um avião de brinquedo para as crianças.

Queima prescrita
O planejamento de queimas prescritas no início da seca para reduzir o combustível vegetal também foi outro tema discutido com a comunidade. “O Prevfogo tem um calendário de queima prescrita e de queima controlada que serve de parâmetro para o período correto de usar o fogo, e ainda temos as brigadas de combate à incêndios que ajudam nesse trabalho, destacou Fernando Mota, da Unidade Técnica do Ibama do Lavrado – RR.
Segurança alimentar
A Embrapa Roraima, instituição parceira na oficina socioambiental do Ibama, apresentou uma proposta tecnológica baseada em um sistema integrado de produção de alimentos, que reúne peixes, aves, hortaliças, frutas e grãos em uma mesma área produtiva. O pesquisador Sandro Loris Aquino Pereira (Engenheiro de Pesca), especialista em recursos pesqueiros e aquicultura, destacou os fundamentos da proposta e os requisitos para sua implantação. Segundo ele, o êxito da iniciativa depende do diálogo com as lideranças e com os membros das comunidades, respeitando sua organização social, cultura e formas de trabalho. “O Sisteminha Embrapa integra agricultura, criação de espécies nativas de peixes da Amazônia e pequenos animais em pequenos espaços, permitindo a produção contínua de alimentos ao longo de todo o ano. Essa estratégia é fundamental para fortalecer a segurança alimentar das famílias, especialmente em períodos de seca prolongada”, explicou o pesquisador.
O trabalho educativo, que incluiu palestras dialogadas, mapa falado, exibição de vídeos e dinâmicas de grupo, reforçou o papel das lideranças indígenas. Os jovens apresentaram soluções para o uso do fogo mais consciente e adaptado às realidades locais e para a busca de parcerias com instituições de pesquisa para investir em projetos sustentáveis. O tuxaua da comunidade Leão de Ouro, João Ferreira, disse que os ensinamentos devem sair do papel. “Nós temos que colocar em prática o que aprendemos aqui, e todas as soluções discutidas pela comunidade, como coleta de lixo, plantio de árvores, manejo do fogo, só vão trazer benefícios para a nossa saúde, se houver a parceria de instituições públicas”, declarou a liderança.
O superintendente substituto do Ibama-RR, Eder Carvalho dos Santos, explicou que a continuidade da Educação Ambiental é fundamental para garantir a difusão do conhecimento técnico e científico e contribuir com a execução das propostas apresentadas pelos indígenas para recuperação e conservação do meio ambiente.

