
O acesso facilitado aos contraceptivos hormonais no Brasil ampliou a autonomia reprodutiva das mulheres nas últimas décadas. Ainda assim, o uso sem orientação médica permanece frequente. Pesquisas nacionais indicam que uma parcela significativa das mulheres já iniciou ou trocou o método por indicação de amigas, familiares ou informações obtidas na internet, sem avaliação clínica adequada.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde mostram que os métodos contraceptivos hormonais estão entre os medicamentos mais utilizados por mulheres em idade reprodutiva no país. Estudos brasileiros também apontam que parte das usuárias relata não ter recebido explicações detalhadas sobre contraindicações, riscos e possíveis efeitos colaterais.
Os contraceptivos hormonais, como pílulas combinadas, minipílulas, injetáveis, adesivos e anéis vaginais, atuam principalmente por meio da inibição da ovulação. Eles alteram os níveis de estrogênio e progesterona no organismo, impedindo que o ovário libere óvulos. Também tornam o muco cervical mais espesso, dificultando a passagem dos espermatozoides, e modificam o endométrio, reduzindo as chances de implantação.
Essas alterações hormonais interferem em diferentes sistemas do corpo feminino.
“O contraceptivo hormonal não age apenas no útero. Ele influencia o sistema cardiovascular, o metabolismo, o fígado e até o humor. Por isso, cada mulher precisa ser avaliada individualmente antes de iniciar o uso”, afirma a ginecologista Dra. Chayane Alves, da equipe Cuidar e Acolher.
Entre os riscos associados ao uso sem acompanhamento estão aumento da pressão arterial, maior risco de trombose em mulheres com predisposição genética, alterações no perfil lipídico, dores de cabeça persistentes, alterações de humor e irregularidades menstruais.
“O maior problema não é o método em si, mas a falta de avaliação prévia. Existem contraindicações importantes, como histórico de trombose, enxaqueca com aura, tabagismo em mulheres acima de 35 anos e algumas doenças hepáticas. Sem essa análise, o risco aumenta”, alerta a médica.
Além das questões clínicas, a escolha inadequada pode levar à descontinuidade do método por efeitos adversos mal tolerados, aumentando o risco de gravidez não planejada.
A orientação médica permite avaliar histórico familiar, exames laboratoriais, rotina da paciente, objetivos reprodutivos e perfil hormonal. Em muitos casos, existem alternativas não hormonais ou opções com menor impacto sistêmico, como dispositivos intrauterinos hormonais ou de cobre, que podem ser mais indicados.
“Contracepção é uma decisão de saúde. Não deve ser baseada apenas em relatos de terceiros. O que funciona para uma mulher pode não ser o ideal para outra”, destaca a médica.
Especialistas reforçam que o acompanhamento periódico também é essencial, mesmo após a escolha do método, para monitorar possíveis efeitos e ajustar a estratégia quando necessário.
A autonomia feminina passa por decisões informadas e seguras. Em caso de dúvidas sobre o método mais adequado, a recomendação é buscar orientação profissional.

