Artigo: Qual o maior impacto positivo que uma Cooperativa de Crédito pode gerar? – João Carlos Spenthof

Muito se tem questionado em que reside o principal diferencial de uma cooperativa de crédito. Mesmo dentro do sistema cooperativista, por vezes resumimos esse diferencial ao impacto gerado pelo investimento social, seja de recursos próprios ou do Fates, em atividades filantrópicas ou educacionais.

Há também o argumento de que o diferencial é a forte presença das cooperativas em municípios desassistidos, promovendo inclusão financeira e, consequentemente, desenvolvimento socioeconômico. Essa presença é reforçada pela atuação nos programas governamentais de crédito para agricultura familiar e empreendedorismo, estimulando o desenvolvimento local.

Contudo, ainda que esses dois aspectos tenham enorme e inegável importância, muitas vezes não se menciona a causa principal de todo o impacto social proporcionado por uma cooperativa de crédito: o seu modelo de negócio. Para entender o porquê disso, é preciso compreender o contexto histórico que motivou a criação desse modelo.

Voltando no tempo

A primeira cooperativa oficialmente reconhecida no mundo, dos Pioneiros de Rochdale, na Inglaterra, surgiu em 1844 da necessidade de ganho em escala para compra de mercadorias (bens de consumo) para artesãos e operários, que viviam a dura realidade pós-revolução industrial, com desigualdades extremas, urbanização desordenada e condições de vida e trabalho desumanas.

O impacto gerado por aquela primeira cooperativa derivou diretamente de seu modelo de negócio: economia gerada para o indivíduo e para o coletivo. E foi a partir da constatação desse impacto positivo que o modelo se disseminou. Da mesma forma, uma cooperativa agropecuária nasce com o objetivo específico de armazenar produtos, vender em escala para obter melhores preços e comprar insumos com poder de barganha coletivo. O impacto social é consequência dessa lógica: melhorar a renda e a qualidade de vida dos associados.

Esse padrão se repete nos demais ramos cooperativos: criar uma empresa que represente os interesses coletivos, permitindo acesso a melhores condições de mercado.

Sociedade de pessoas, para pessoas – No mercado financeiro, as cooperativas cumprem papel semelhante: comprar e vender dinheiro (de e para seus associados) sem objetivo de lucro, além de oferecer produtos e serviços financeiros (seguros, cartões, consórcios) a preços mais baixos. Esse é o seu modelo de negócio: uma sociedade de pessoas, para pessoas. E esse modelo gera impacto social de forma direta e indireta:

• Economia em taxas e tarifas: mais recursos permanecem no bolso dos associados.

• Mais qualidade de vida: prosperidade individual e coletiva.

• Círculo virtuoso: depósitos viram funding que viabiliza novos empréstimos, que movimentam a economia local, retroalimentando o ciclo.

Segundo dados oficiais do Banco Central, no exercício de 2021, a economia gerada aos mais de 13 milhões de associados em cooperativas financeiras no Brasil foi de R$ 25,9 bilhões, principalmente pelas taxas de juros mais justas em linhas comerciais (crédito pessoal e empresarial).

Mas, essa economia não é apenas um número frio: ela se traduz em milhões de famílias conseguindo investir em educação, empreendedores ampliando seus negócios e agricultores fortalecendo sua produção. Cada real economizado retorna para a comunidade em forma de consumo, geração de empregos e melhoria da qualidade de vida. Esse efeito multiplicador é o que sustenta o conceito de “economia compartilhada” dentro do cooperativismo financeiro.

Outro ponto relevante é que, ao contrário de instituições tradicionais, as cooperativas reinvestem seus resultados no próprio quadro social, seja por meio de sobras distribuídas ou pela ampliação de serviços. Isso reforça a ideia de pertencimento e engajamento, criando uma relação de confiança que vai muito além da simples transação financeira.

Mais que resultados: geração de valor

Os programas sociais são, sem dúvida, um grande diferencial das cooperativas. Porém, não podem ser considerados o único ou principal fator de impacto social. O verdadeiro motor desse impacto é o modelo de negócio cooperativo, que cumpre o objetivo pelo qual a cooperativa foi criada: resolver um problema econômico, gerando prosperidade e inclusão.

Em outras palavras, programas sociais complementam, mas é a eficiência do modelo de negócio que garante a perenidade e a relevância do cooperativismo no cenário econômico.

Para atingir a sustentabilidade plena — econômica, social e ambiental — é essencial que a cooperativa continue gerando valor para os associados. Somente assim, o impacto social será autêntico e duradouro.

(*) João Carlos Spenthof é presidente da Central Sicredi Centro Norte e vice-presidente da OCB-MT.

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