Artistas indígenas, jovens talentos e diferentes linguagens marcam primeira exposição da Galeria Dam Kuy A’ki

Mostra reúne diferentes formas de criar, narrar e compreender o território amazônico; abertura será realizada nesta sexta-feira, 7 de agosto, às 19h, no Complexo de Artes da UFRR. – Fotos: Paulo Trindade

A exposição coletiva que inaugura a Galeria de Arte Dam Kuy A’ki, da Universidade Federal de Roraima (UFRR), apresenta ao público um panorama da diversidade das artes visuais produzidas no estado. Entre artistas experientes e estreantes, mestres dos saberes tradicionais, estudantes universitários, artistas indígenas e não indígenas, a mostra reúne diferentes formas de criar, narrar e compreender o território amazônico.

Realizada pelo Núcleo de Apoio à Vida de Boa Vista (Navibv), a exposição marca o encerramento da residência artística promovida pelo Nortear – Projeto de Formação e Fomento das Artes Visuais em Roraima. A abertura será realizada nesta sexta-feira, 7 de agosto, às 19h, no Complexo de Artes da UFRR.

Ao todo, oito artistas integram a mostra: Alcione Peres, Ehuana Yaira Yanomami, Francisco Alves, Isaías Miliano, Joana Fidélix, José Leonel Casado Cliffe (Anâkok Taûrepang), Luis Antonio Hernandez Garcia (Lu Is Art) e Sourrio Nascente.

Sete deles foram selecionados por edital para participar da residência artística, recebendo uma bolsa de criação de R$ 3 mil destinada ao desenvolvimento de pesquisas e produções inéditas. A artista visual Ehuana Yaira Yanomami participou como convidada e também integra a exposição.

Ancestralidade, território e identidade

Um dos aspectos que mais se destacam na exposição é a presença de artistas indígenas de quatro povos distintos: Patamona, Macuxi, Taurepang e Yanomami. Suas obras dialogam com ancestralidade, preservação cultural, espiritualidade e a relação entre os povos originários e seus territórios.

Isaías Miliano

Com mais de 35 anos dedicados às artes visuais, Isaías Miliano, do povo Patamona, leva para a mostra uma produção marcada pelo diálogo entre arte, memória, ancestralidade e defesa do território. Natural da Serra do Mutum e residente em Boa Vista, o artista mantém um ateliê no bairro Jóquei Clube, espaço que também recebeu atividades da residência artística e serviu como ambiente de criação e troca entre os participantes. Artivista (escultor, artesão e artista plástico), Isaías utiliza a arte como instrumento de denúncia política e socioambiental, promovendo reflexões sobre os direitos dos povos indígenas, a preservação da natureza e o patrimônio rupestre de Roraima.

Na exposição, apresenta a instalação “Raízes Aéreas em Mutação”, obra que chama atenção para os impactos da contaminação dos rios, igarapés, lagos e bacias hidrográficas sobre a fauna e os modos de vida tradicionais. O trabalho integra também uma mostra em cartaz na Pinacoteca de São Paulo, ampliando o alcance das discussões propostas pelo artista.

Alcione Peres

Representando uma nova geração de artistas indígenas, a wapichana Alcione Peres, de 24 anos, participa de sua primeira exposição. Estudante do curso de Artes Visuais da UFRR, ela destaca que a residência proporcionou muito mais do que aprendizado técnico.”Eu particularmente aproveitei cada momento com os demais artistas, ouvindo suas experiências, trocando conversas, energia e boas risadas”, relata.

Sua obra aborda a simbiose entre o ser humano e a terra. Para a artista, a expectativa é que a exposição represente o início de novas oportunidades.”Espero que esse trabalho coletivo possa nos abrir portas além daqui”, afirma.

Joana Fidélix

Também integra a mostra a mestra indígena macuxi Joana Fidélix, referência na preservação dos saberes tradicionais relacionados à cerâmica. Recentemente, ela recebeu o Título de Notório Saber durante o Encontro de Mestras e Mestres do Notório Saber no Brasil, realizado em Maceió (AL), reconhecimento nacional por sua trajetória na valorização dos conhecimentos ancestrais.

Na residência artística, Joana compartilhou conhecimentos tradicionais com os demais participantes. Durante uma das imersões realizadas no Espaço Jamaxim, conduziu um momento simbólico de proteção, aplicando urucum em cada integrante do grupo antes do início das atividades. Na exposição, apresenta a obra Ko’ko.

Anâkok Taûperang

Outro estreante em exposições em galeria é José Leonel Casado Cliffe, de 22 anos, conhecido artisticamente como Anâkok, palavra da língua Taurepang que significa “pássaro misterioso”.

Embora esta seja sua primeira participação em uma exposição nesse formato, ele explica que sua trajetória artística começou ainda na infância. “Já venho construindo uma trajetória na arte independente, com participações em outras mostras e projetos visuais. Trago a bagagem que desenvolvi desde criança com o desenho, o carvão e, mais recentemente, com a pintura acrílica sobre tela”, contou.

Segundo o artista, suas obras dialogam diretamente com a proposta da exposição.”Minhas obras focam na preservação cultural, na ancestralidade indígena e na conexão profunda com a terra. Através das cores e das formas, busco retratar a identidade e a espiritualidade que sustentam o meu povo no território”, explicou.

Ehuana Yaira Yanomani

Fechando o conjunto de artistas indígenas está Ehuana Yaira Yanomami, convidada especial da residência artística. Professora, pesquisadora, artista visual e liderança do povo Yanomami. Segundo o curador da exposição, Paulo Trindade, ela é uma das principais referências da arte indígena contemporânea brasileira.

Natural da região do Demini, na Terra Indígena Yanomami, sua produção artística registra e compartilha aspectos da cosmologia, do cotidiano e do protagonismo das mulheres Yanomami. Suas obras já integraram importantes exposições nacionais e internacionais, incluindo mostras na Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, em Paris. Atualmente, também exerce o cargo de primeira tesoureira da Hutukara Associação Yanomami (HAY).

Diversidade de linguagens

A pluralidade da exposição também se manifesta nas diferentes linguagens artísticas apresentadas ao público.

Sourrio Nascente

Pessoa não binária, Sourrio Nascente já participou de outras exposições, mas esta é a de maior dimensão de sua trajetória até o momento. Em sua produção artística, utiliza materiais naturais, materiais reutilizados e técnicas que dialogam com a natureza e a espiritualidade a partir das vivências do cotidiano como pessoa trans, nortista e peregrine.

Segundo a artista, a produção dialoga com sua própria experiência de vida. “Essas obras falam sobre corpos não binários, corpos trans e espiritualidade. Trago para a minha arte essa conversa entre identidade, existência e o meu entendimento sobre o mundo”, contou.

Sobre a expectativa para a mostra, Sourrio destaca o desejo de compartilhar esse processo com o público. “Estou com uma expectativa muito grande para a exposição. Espero que muitas pessoas possam comparecer, apreciar nossas obras e recebê-las com o mesmo carinho e dedicação com que foram produzidas”, disse.

Luis Hernandez

O artista venezuelano Luis Antonio Hernandez Garcia, conhecido como Lu Is Art, também integra a exposição. Com uma trajetória construída desde a infância, ele já participou de diversas mostras coletivas na Venezuela e no Brasil.

Para esta exposição, apresenta a série “Symploké: os três gêneros da realidade”, composta pelas obras M1 Física, M2 Psicológica e M3 Ideal/Abstrata. Segundo o artista, participar da residência foi uma oportunidade de compartilhar o processo criativo com outros artistas que atuam em Roraima. “Tenho a melhor expectativa, porque a exposição está composta por grandes trabalhadores das artes e por uma ampla variedade de técnicas artísticas diferentes”, afirma.

Francisco Alves

A programação da abertura contará ainda com performances do artista e professor Francisco Alves, reconhecido por sua atuação nas artes cênicas em Roraima. Entre elas está Oratório Negro, intervenção que amplia a experiência do público e propõe reflexões sobre memória, identidade e resistência.

Sobre o projeto Nortear

Contemplado pelo Programa Rouanet Norte e patrocinado pelo Banco do Brasil, o Nortear – Projeto de Formação e Fomento das Artes Visuais em Roraima busca fortalecer as artes visuais e a economia criativa na Região Norte. A iniciativa promove formação artística, incentivo à produção cultural e valorização da diversidade, reunindo artistas de diferentes trajetórias em processos colaborativos de criação.

Visitação

Após o evento de abertura, a exposição poderá ser visitada gratuitamente de 10 de agosto a 10 de setembro, em dias úteis, das 14h às 18h, na Galeria de Arte Dam Kuy A’ki, localizada no Complexo de Artes da UFRR, na Avenida Ene Garcez, nº 2413, bairro Aeroporto, em Boa Vista, ao lado do Centro Amazônico de Fronteiras (CAF/UFRR).

Mais informações

Informações sobre o projeto Nortear – Formação e Promoção das Artes Visuais em Roraima e sobre as ações desenvolvidas pelo Navibv podem ser obtidas pelo telefone (95) 99172-1487, pelo e-mail navibv.boavista@outlook.com ou pelo Instagram @navibv.rr

Sofia Lampert

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