Coluna Ágora: A Razão Sequestrada pela Estética do Vazio – Tom Albuquerque

O exercício crítico de uma sociedade requer alguns requisitos impreteríveis, tais como: incentivo à leitura, a partir da infância; liberdade para criar; desenvolvimento de diálogos pluralizados; o uso liberto da percepção; fuga aos fanatismos; estar dotado de visões sintética e analítica; e gozar da capacidade de se manter suscetível ao que é cético e ao dogmático.

Este século tem tornado a criticidade como algo secundário, refém que está do senso comum extrapolado. Pouco interessa, para considerável ala social, a exposição ao ridículo, a ausência de identidade ou a granelização comportamental – desde que haja os likes, monetizados ou não. É o dissecamentodo indivíduo, perdido de si mesmo e da realidade crua com viso às aparências, ao lastro de representações.É o império da superfície pela erosão do conteúdo. Antes, o ser como pilar moral; depois, o ter além de ser. Hoje, parecer além de ter.

O mundo real não se sustenta na tela. Afideginidade vividatem sido substituída por um consumo passivo de aparências, forjadas levianamente para atender os desejos e prazeres de grupos sociais – incluindo os impublicáveis.Nesse arcabouço, surge a figura da influencer. Creio ser esta uma palavra muito forte para ser tão banalizada, ser aplicada a pessoas sem expressão, sem conteúdo empírico, sem medula intelectual, sem cerne moral, sem formação científica alguma, e sem legado algum construído. Observo pasmado, por vezes, o que levaria a alguém seguir um personagem ou algo que em nada agrega, representa ou se posta como exemplo ou parâmetro do que se considere frutífero ou lhe poderia ser útil. Quem influencia quem?

Na modernidade Líquida do professor britânicoZygmunt Baumané tratada por meio da metáfora da liquidez, na qual em um mundo líquido,firmou o filósofo, os laços humanos se tornam frágeis e superficiais, restringindo os relacionamentos em meras conexões, vez que aprofundar compromisso é taxado como um fardo para a liberdade de consumo. É o indivíduo alienado em uma busca constante por identidade no entremeio do descartável, objetos e seres humanos, culminando numa insatisfação crônica de uma coletividade enferma que padece pela autoafirmação osteoporótica.

Superar a anestesia da sociedade destampada vigente exige, fundamentalmente, uma guinada de postura e de comportamento social, não cabendo compactuações ruidosas que premiam o verniz em detrimento do conteúdo, comumente explicitado pela exposição arreganhada. O desafio contemporâneo reside em reabilitar o pensamento crítico e a autenticidade como pilares institucionais. Quando a imagem substitui a substância, cabe à racionalidade o papel desconfortável de rasgar as aparências.

Diante do primado do efêmero e do visual, a sociedade cosmética nos cobra um preço alto: a perda da nossa própria densidade histórica. Inclinemo-nos a decidir se continuaremos a adornar o supérfluo ou se voltaremos a cultivar o essencial.

(*) Administrador e Professor

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