Coluna C & T: Os testes ambientais – Daniel Nascimento-e-Silva

Do ponto de vista macroorganizacional, o ambiente externo é composto de forças positivas (chamadas oportunidades) e negativas (chamadas ameaças). Os administradores são profissionais especializados em elaborar esquemas de ação (planos) capazes de aproveitar ao máximo possível as oportunidades ao mesmo tempo em que lidam com adequação com as ameaças. A lógica que está por trás desses procedimentos é o fato que as organizações não conseguem controlar as forças ambientais, o que leva os gestores ao aprendizado de convivência com as ameaças para que as chances de sucesso no aproveitamento das oportunidades aumentem consideravelmente. Do ponto de vista microambiental, os administradores e engenheiros também elaboram esquemas parecidos, de maneira que sejam otimizados os recursos, processos e resultados das linhas de produção, tecnologias e produtos, ao mesmo tempo em que se lide com adequação das forças adversas, tanto aquelas que buscam reduzir ou eliminar o sucesso da tecnologia quanto as externalidades negativas que o artefato tecnológico poderá causar ao ambiente de operações e, por extensão, ao macroambiente organizacional. Veremos, portanto, alguns aglomerados de testes ambientais que precisam ser considerados, de forma genérica, para todos os tipos de protótipos e tecnologias.

O ambiente de operações exerce impactos significativos nas tecnologias, tanto positivos quanto negativos. Positivamente, a tecnologia pode otimizar processos, aumentar a eficiência e a produtividade, além de impulsionar a inovação e a competitividade. No entanto, o desenvolvimento e a utilização de tecnologias também podem gerar impactos ambientais negativos, como a poluição, a emissão de gases de efeito estufa e a geração de resíduos eletrônicos.

Em primeiro lugar aparecem os testes de otimização de processos. Os processos devem ser entendidos como as etapas através das quais as entradas de um sistema são transformadas em produtos. Embora a otimização dos processos seja foco da prototipagem processual, ela é também focada nos impactos ambientais porque são as etapas que geram os resultados, os valores a serem entregues aos clientes, proporcionam a eficiência e a eficácia e seus desdobramentos em custos, receitas e desempenho operacional. A produtividade, por exemplo, que é outro foco de testes ambientais, precisa focar os recursos de tecnologias de informação e comunicação para gerenciar as tarefas e recursos, que são variáveis e conjuntos de variáveis que incidem sobre a produtividade.

Um segundo bloco de testes envolve a inovação e a competitividade. Depois que a tecnologia é transferida, as responsabilidades da equipe de invenção não param, o que força a continuidade do aperfeiçoamento do artefato tecnológico entregue, seja através da sua atualização, seja por meio do desenvolvimento de novos produtos. Isso leva, naturalmente, a impactos ambientais em termos da capacidade continuada de resolução de problemas e suprimento de demandas. E esses esforços são resultados desdobrados do aumento contínuo da capacidade competitiva das equipes de inovação, entendidas como autossuperação, o que implica em perceber que a concorrência não está lá fora, mas internamente a cada indivíduo. É preciso que cada um se supere continuamente para que a equipe seja capaz de enfrentar e vencer quaisquer obstáculos externos.

Muitas tecnologias, por diversas razões, provocam efeitos negativos e até mesmo nocivos, como poluição e emissão de gases de efeito estufa. É preciso, portanto, que testes e retestes sejam feitos para que o comprometimento do ar, água, solo e resíduos tóxicos esteja em conformidade com os parâmetros legais. De forma semelhante, as equipes de inovação precisam estar em sintonia com os avanços relativos à produção de energia limpa e até mesmo a criar seus próprios mecanismos e artefatos neste sentido. Como cada vez mais as tecnologias têm embarcados recursos eletrônicos, esses resíduos também precisam ser testados em diversos parâmetros, especialmente os que compõem as arquiteturas de logística reversa.

Quase sempre as tecnologias são redutoras das forças de trabalho, de maneira que cada vez que elas são transferidas, grandes impactos sobre o mercado de trabalho são constatados. Inversamente, também, as eliminações de postos de trabalho sinalizam aquilo que as pessoas precisam saber e adquirir habilidades para que eliminem suas vulnerabilidades. É possível testar e retestar esses impactos antes da transferência, para que as pessoas impactadas sejam habilitadas a lidar com a tecnologia. Esse procedimento implica na assunção da responsabilidade ética para com o outro para que sua qualidade de vida não se deteriore, mas também não comprometa o compromisso assumido com os clientes da tecnologia no suprimento de suas necessidades.

Os testes e retestes ambientais vão muito além do que a preocupação simples e delimitada àquilo que acontece no espaço imediatamente próximo em que a tecnologia vai operar, como uma sala ou ambiente ainda mais reduzido. Muitas tecnologias causam impactos que vão muito mais além, muitas vezes não percebidas pelos inventores e seus clientes, como é o caso da inteligência artificial, que coleta dados de tanta coisa que nem os inventores imaginavam, mas que pode comprometer diversos aspectos da vida humana associada e a individualidade das pessoas.

Os desafios que os testes e retestes ambientais precisam perceber, enfrentar e lidar com adequação é o de garantir o funcionamento satisfatório da tecnologia que sua equipe de invenção vai entregar para suprir necessidades, mas sem causar prejuízos aos outros, nem à própria tecnologia e sua organização. Equipes de invenção e suas organizações e instituições precisam testar e retestar suas práticas, para que sejam sustentáveis em todos os aspectos: ambiental, social, econômica, financeira, satisfacional etc. Esses diversos aspectos são medidos e testados na prática da transparência e eticidade. Do relacionamento que a equipe de invenção faz com as pessoas, instituições e organizações do ambiente externo. Em síntese, testar e retestar protótipos ambientais é dar um passo seguro para que o ambiente de operações da tecnologia e seus desdobramentos cumpra os seus compromissos tecnológicos ao mesmo tempo em que garante que impactos nocivos não comprometerão a qualidade de vida das pessoas e o nem desempenho da tecnologia gerada.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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