Coluna C & T: Testes de funcionalidades – Daniel Nascimento-e-Silva

Os testes de funcionalidades poderiam ser definidos como testes de racionalidades porque eles representam a aferição da capacidade humana de executar e fazer funcionar os seus esquemas mentais. A razão se parece com o grau de exatidão entre o que foi mentalizado (mas colocado no papel ou transformado em alguma representação objetiva, fora da mente, como um desenho ou uma maquete) e aquilo que foi construído a partir dessa mentalização. Quanto maior for a aproximação dessas duas dimensões das capacidades humanas, maior tende a ser a racionalização e, portanto, maiores as funcionalidades daquilo que foi construído. Tome-se, por exemplo, o caso de um artefato mentalizado para medir a qualidade da água nos parâmetros de luminosidade, turbidez e temperatura em tempo real a partir de mecanismo de autogeração de energia. Primeiro será feita uma representação dele, um desenho esquemático para, em seguida, serem feitos alguns protótipos para serem testados. Os resultados dos testes apontam as diferenças entre o que foi mentalizado e o que foi executado, que é justamente a capacidade de racionalização, medida através dos testes de funcionalidades. Afinal, uma tecnologia é feita para funcionar, com o perdão da redundância.

A capacidade racional da geração de tecnologias é depende da acurácia na definição de especificações e requisitos que orientarão a ação de transformação do que é mentalizado em artefato físico ou extrafísico. O que os testes de protótipos fazem, em última análise, em relação às funcionalidades é aferir se as especificações e requisitos foram atendidos. Mas o fazem de forma um pouco diferente do que a imaginação popular sugere. Os testes vão em um crescendo, com início nos testes das peças que compõem cada subcomponente. Se todas as peças funcionarem isoladamente, a probabilidade de que um subconjunto delas funcione e gere os resultados dele esperado aumenta. Se a peça não funcionar, precisa ser consertada ou substituída; se o subconjunto não funcionar, precisa, de igual forma, ser ajustado e, se voltar a não funcionar, carece de novo reajuste, até que funcione. Esse procedimento vai ascendendo aos componentes, depois às subpartes e às partes, até alcançar a dimensão da totalidade da tecnologia, que é quando as partes, conjuntamente, geram os resultados e benefícios esperados.

A lógica que orienta os testes de funcionalidades é estruturada em termos de unidade e integração. Isso significa que primeiro é testada a peça, subcomponente, componente e assim sucessivamente como unidade, sozinha, isolada de tudo o que faça parte ou se relacione. Aqui são testadas as especificações e os requisitos individuais, para aferir sua conformidade com o funcionamento esperado, momento no qual as unidades defeituosas e com não atendimento às especificações e requisitos são substituídas ou retificadas. Esse procedimento racionaliza e acelera os esforços de conformidade porque reduz em muito a probabilidade de disfuncionalidades em estágios avançados de geração da tecnologia. Depois de aferida a conformidade de unidade são feitos os testes de integração, quando é aferido o funcionamento de todas as unidades ao mesmo tempo para que gerem os resultados do conjunto. Imagine-se um subcomponente feito com as peças A, B e C. Os testes de integração vão aferir se as três peças funcionam juntas adequadamente para produzir um resultado oriundo desse funcionamento conjunto. No teste de unidade, é preciso novamente observar, é aferida a funcionalidade da peça; no teste de integração não são testadas as funcionalidades isoladas da peça, mas do subcomponente, que é um todo feito das peças A, B e C.

Outro conjunto de testes de funcionalidade vai mirar a percepção do usuário. A finalidade é saber se a tecnologia funciona sob o ponto de vista de quem vai usá-la. Parece estranho, mas tem uma lógica que precisa ser conhecida nessa preocupação, e ela é bastante simples: o que esses testes querem saber é se a tecnologia atende às necessidades dos usuários, se ela entrega os benefícios que dela se espera. Uma coisa é ser aprovada na funcionalidade de cada peça e do conjunto de peças; outra coisa é saber se essas funcionalidades geram aquilo que delas é esperado. Se os usuários não aceitarem aquilo que lhes está sendo entregue, então o protótipo não pode ser considerada uma tecnologia viável. É preciso, então, que ajustes e reajustes sejam feitos para que novos testes e retestes sejam executados, para que o protótipo possa ser considerado uma tecnologia nesse aspecto de aceitação.

Como esses testes são feitos? Em primeiro lugar, listam-se as especificações e requisitos de cada unidade e depois os testes de conformidade são feitos para cada uma delas, isoladamente. Em segundo lugar, listam-se as especificações e requisitos do subcomponente do qual as unidades fazem parte, para em seguida serem aferidas as conformidades do subcomponente. cada subcomponente passa a ser uma unidade da próxima etapa, que é o teste das conformidades dos componentes, para aferir se o componente funciona da forma que foi planejado enquanto resultado do funcionamento do conjunto dos subcomponentes, uma vez que eles já tiveram suas conformidades testadas nas etapas anteriores. Novamente aqui, os componentes passam a ser tomados como unidades de um todo maior, que é uma subparte, que também precisa ser testada a sua funcionalidade, e assim sucessivamente. A última etapa dos testes de funcionalidades é o funcionamento da tecnologia, quando o funcionamento de todas as suas partes enquanto conjunto é testado. Só então são feitos os testes com os usuários, que são os testes de aceitação.

Os testes de funcionalidades iniciam com o planejamento, onde são definidos os objetivos, requisitos, especificações, escopo e recursos a serem utilizados. Depois há a preparação do ambiente ou contato com os usuários, quando for o caso, para que estejam em adequação com as finalidades pretendidas. Em seguida os testes são executados, com a coleta dos dados, culminando com a realização das análises e organizações dos dados mediante procedimentos válidos. Os resultados precisam constar de relatórios técnicos, que servirão para vários fins posteriores, principalmente atualizações da tecnologia via melhoria contínua.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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