Coluna C & T: Testes de mercado – Daniel Nascimento-e-Silva

Os testes de mercado são popularmente conhecidos como pesquisas de mercado. Infelizmente, devido ao desconhecimento de seus aspectos essenciais, esses testes são costumeiramente deixados de lado pelos cientistas, por considerarem-nos irrelevantes quando comparados com outras questões relativas aos seus inventos. A consequência quase sempre é desastrosa, com a perda dos diversos recursos empregados nos protótipos fracassados, principalmente o tempo, único dos recursos que não pode ser reposto. O primeiro aspecto desconsiderado é que a ideia de mercado envolve, de um lado, pessoas e organizações que estão aptas e dispostas a comprar, adquirir determinada tecnologia, o que significa que têm dinheiro para pagar e desejam firmemente comprar o artefato de que precisam, e, de outro, pessoas e organizações que estão aptas e dispostas a vender, produzir, criar alguma tecnologia para suprir as necessidades de quem deseja adquiri-la, o que quer dizer que têm a posse legal do produto ou processo e efetivamente querem vendê-lo. Disso vem que o mercado é justamente o espaço, físico ou extrafísico, onde esses dois grupos de pessoas e organizações se encontram para comprar e vender. Os cientistas ou alguém da equipe de invenção precisa conhecer com profundidade os integrantes desses dois grupos, porque os primeiros são seus concorrentes e os segundos, seus clientes.

O segundo aspecto ignorado por grande parte das equipes de invenção é a dinâmica do marketing. Essa dinâmica representa a operacionalização dos esforços inventivos para suprir com adequação às necessidades com a maior probabilidade possível de alcançar o sucesso pretendido. É o conhecimento dessa dinâmica operacional que faz com os testes e as pesquisas de mercado cumpram com a sua finalidade, que é a sustentação em dados reais das decisões que necessariamente deverão ser tomadas, tanto pelos cientistas quanto pelos executivos do projeto. Essa operacionalidade é feita em relação a quatro grandes blocos de decisão: produto, preço, praça e promoção, os chamados 4P. É recomendado que os testes de mercado sejam feitos em três ocasiões. A primeira é para saber que tecnologia o mercado deseja e que a equipe de inventores é capaz de criar para supri-la; a segunda é durante as etapas de invenção, para que se tenha a garantia de que os aspectos centrais da tecnologia estejam contempladas para que possam entregar os benefícios pretendidos pelos futuros clientes; e a terceira é depois que a tecnologia esteja pronta, de maneira que se possa definir com exatidão aspectos fundamentais dos 4P a serem implementados e dirimir dúvidas remanescentes.

Os testes de mercado, portanto, são um conjunto de etapas elaboradas de forma sistemática, começando com as questões de pesquisa e as questões norteadoras para cada uma delas, as formas e estratégias de coleta e organização dos dados, as técnicas a serem utilizadas para a geração e interpretação dos resultados, as maneiras de apresentação e utilização das descobertas e o plano operacional de melhoria da tecnologia. A sistematização dos testes de mercado é decorrente da necessidade de se obter os resultados os mais fiéis possíveis para que as decisões também sejam as mais acertadas possíveis. A finalidade dos testes de mercado é garantir que a tecnologia que será, que está sendo e que foi concluída está em conformidade com as necessidades dos clientes, usuários e consumidores. Por essa razão não pode contemplar apenas aspectos científicos e tecnológicos, mas englobar dimensões financeiras, logísticas, legais e gerenciais, dentre outras.

A primeira grande dimensão é relativa ao produto. Questões centrais de pesquisa precisam ser formuladas para descobrir, pelo menos, quais são as necessidades do mercado e o que é esperado como benefício para cada necessidade. Questões norteadoras devem focar especificidades de cada questão, como o escopo dos benefícios, segmentos do mercado, quantificações dos segmentos, assim como informações e dados para uma primeira representação da solução, para que se decida acerca do tempo mínimo e máximo para a prototipagem e transformação em produto, as competências essenciais da equipe e assim por diante.

A segunda dimensão tenta dar conta do preço da tecnologia. Questões centrais de pesquisa devem mirar os custos totais, de um lado, e a estimação das receitas totais. Questões norteadoras precisam se voltar para o conhecimento dos itens da tecnologia (bill of materials), suas quantidades, custo unitário e total, além dos outros custos (pré-operacionais, infraestruturais, operacionais etc.), assim como para as possíveis receitas diárias, semanais e mensais projetadas para que se possa calcular o tempo de retorno dos investimentos, rentabilidade e lucratividade.

A terceira dimensão é a promoção. Promover é fazer a tecnologia ser conhecida, principalmente aquelas que não são de contrato fechado. As questões centrais de pesquisa, aqui, devem focar os canais de relacionamentos com os clientes e as estratégias mais promissoras para que todos tenham as informações de que necessitam para suas decisões e usos da tecnologia. E a quarta dimensão dos testes de mercado é a praça, que corresponde aos locais físicos e extrafísicos em que os produtos poderão ser encontrados ou acessados pelos clientes. As questões norteadoras para essas dimensões precisam focar os meios tecnológicos e físicos de relacionamento (como mídias sociais e meios de comunicação) e entregas (como lojas físicas e representações comerciais).

Ainda é muito comum que as pessoas não especializadas confundam testes de mercado com informações sobre o preço de produtos ou quem os vende; outras, com mais conhecimentos, já conseguem ver que o mercado pode ser parcialmente entendido a partir do conhecimento sobre os concorrentes, clientes e fornecedores. É preciso, contudo, avançar nos conhecimentos e englobar pelo menos os 4P. Mas o ideal seria ter informações mais amplas, envolvendo as dimensões políticas, sociais, econômicas, legais, tecnológicas, demográficas e tecnológicas, de maneira que se pudesse construir um cenário dinâmico, da realidade presente às futuras possíveis, com a intenção deliberada e sistemática de se evitar os fracassos que teimam em rondar os ambientes de produção e distribuição tecnológica.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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