
Quando milhares de corredores cruzarem as ruas de Boa Vista na manhã desta quinta-feira, 9, durante a 24ª Corrida Internacional 9 de Julho, eles não estarão movimentando apenas um dos maiores eventos esportivos da Região Norte. Ao longo do percurso e nos espaços de concentração do público, dezenas de pequenos empreendedores também estarão vivendo um dos dias mais importantes do ano para seus negócios.
Promovida pela Prefeitura de Boa Vista em comemoração ao aniversário da capital, a Corrida Internacional 9 de Julho consolidou-se como um dos principais eventos do calendário esportivo brasileiro. A prova reúne atletas profissionais, corredores amadores, famílias e visitantes de diversos estados e países, fortalecendo o turismo esportivo e impulsionando diferentes setores da economia, como alimentação, hotelaria, transporte, comércio e prestação de serviços.
Para muitos empreendedores, a corrida representa uma vitrine para apresentar produtos, conquistar novos clientes e aumentar a renda. É um momento aguardado durante todo o ano, resultado de semanas de planejamento, produção reforçada e preparação de itens voltados especialmente ao público esportista.
Entre essas histórias está a da empresária Josy Medrado, fundadora da Ki’Delícia Dindin Gourmet, que construiu sua trajetória justamente acompanhando o crescimento das corridas de rua em Boa Vista.
Um negócio que nasceu nas corridas
Há nove anos, quando decidiu transformar uma receita caseira em fonte de renda, Josy encontrou nas corridas de rua o ambiente ideal para começar.
Foi ali, em meio aos atletas e ao público que prestigiava os eventos esportivos, que surgiram os primeiros clientes, as primeiras vendas e, principalmente, a oportunidade de ouvir quem consumia seus produtos.
“A Ki’Delícia Dindin Gourmet nasceu nas corridas de rua. Nós participamos praticamente de todas as corridas realizadas em Boa Vista, principalmente da Corrida 9 de Julho, que é o evento esportivo mais esperado do ano. Começamos com poucos sabores e fomos aumentando nossa variedade ouvindo nossos clientes, mas sempre mantendo a qualidade como prioridade.”
A cada edição das corridas, novos sabores eram incorporados ao cardápio. O retorno dos consumidores ajudou a empresa a crescer e conquistar espaço também em aniversários, confraternizações, chás de bebê e outros eventos particulares.
Hoje, a marca oferece dezenas de sabores distribuídos em linhas Premium e Diamante, além de um diferencial pensado especialmente para quem pratica atividade física.
Percebendo que o número de corredores aumentava ano após ano e que muitos buscavam opções mais equilibradas de alimentação, Josy criou uma linha Fitness de dindins gourmets preparados com whey protein.
Entre as opções estão os sabores Whey Doce de Leite com Brownie e Whey Baunilha com Brownie, desenvolvidos para atender atletas e consumidores que desejam uma sobremesa mais compatível com um estilo de vida saudável.
Enquanto isso, as linhas tradicionais continuam fazendo sucesso com sabores como Coco, Mousse de Limão, Delícia de Abacaxi, Amendoim Cremoso, Ninho com Nutella, Chocolate Trufado, Pudim, Pistache e Morango com Nutella.
O crescimento da empresa também rendeu reconhecimento estadual. Em 2025, Josy foi uma das finalistas do Prêmio Sebrae Mulheres de Negócios em Roraima.
“Foi uma experiência de muito aprendizado. Tenho muito orgulho de ter participado. O prêmio contribuiu para meu crescimento como empresária e me mostrou que estamos no caminho certo.”
Ela destaca ainda que o sucesso do empreendimento também é resultado do apoio da família.
“Hoje meu marido é meu braço direito. Nós trabalhamos juntos e isso faz toda a diferença para que possamos atender nossos clientes com qualidade.”
Para Josy, participar da Corrida Internacional 9 de Julho é mais do que uma oportunidade de vender.
“É um momento de reencontrar clientes, apresentar novidades e fazer parte de um evento que acompanhou toda a história da nossa empresa.”
Um brownie que nasceu da esperança
Se para Josy as corridas marcaram o nascimento do negócio, para a venezuelana Maria Gabriela Blanco o empreendedorismo representou a possibilidade de reconstruir completamente a própria vida.
Ela chegou ao Brasil em 2017 fugindo da grave crise humanitária vivida na Venezuela. Estudante de Engenharia Civil, precisou deixar o país em busca de segurança, alimentação e perspectivas para o futuro.
“Cheguei ao Brasil sem rede de apoio, sem falar português e sem saber por onde começar. Mas carregava comigo muita fé e a esperança de construir uma vida melhor.”
Na Venezuela, fazer brownies era apenas um hobby. No Brasil, tornou-se uma oportunidade de sobrevivência.
Maria preparou sua primeira fornada e percorreu diversos estabelecimentos oferecendo o produto. A resposta inicial não foi a que esperava.
“Recebi muitos ‘nãos’. Apenas duas pessoas aceitaram experimentar. Naquela época ainda havia muita desconfiança com quem vendia nas ruas, principalmente por eu ser venezuelana. Voltei para casa triste, mas não desisti.”
Em 2018, decidiu que permaneceria definitivamente em Boa Vista. Foi nesse período que nasceu o nome Brownie Beija Flor.
“Antes mesmo de saber exatamente o que eu iria vender, uma palavra ficou muito forte no meu coração: beija-flor. Eu me apaixonei pela sonoridade dessa palavra. Ela transmitia leveza, delicadeza e esperança. Escolhi esse nome como um ato de fé.”
Enquanto trabalhava em dois empregos — um restaurante e uma loja de açaí — para custear os estudos e manter as despesas da casa, Maria produzia brownies artesanalmente nas horas vagas.
A oportunidade de crescimento surgiu quando o proprietário da loja de açaí permitiu que ela expusesse seus produtos no balcão, sem cobrar qualquer valor pelo espaço.
Foi ali, observando diariamente os clientes, que ela descobriu um novo propósito para o negócio.
“Muitas pessoas queriam comprar, mas não podiam por causa da diabetes ou de outras restrições alimentares. Isso me incomodava.”
Pouco tempo depois, uma colega de trabalho contou que a filha não podia consumir leite.
Maria desenvolveu uma receita especial utilizando banana e cacau 100%.
“A alegria daquela menina mudou tudo para mim. Naquele momento eu descobri que queria produzir um brownie que qualquer pessoa pudesse comer, sem culpa e sem medo.”
Hoje, a Brownie Beija Flor oferece uma linha completa de brownies sem açúcar, sem glúten e sem lactose, além de produtos elaborados com chocolate 70% cacau.
Na Corrida Internacional 9 de Julho, ela também comercializará água de coco, açaí e produtos voltados ao público que busca uma alimentação mais equilibrada.
Capacitação para crescer
Ao longo da trajetória, Maria buscou qualificação para fortalecer o empreendimento.
Uma das experiências mais marcantes foi a participação na Jornada Acadêmica Empreendedora de Roraima (JAE), promovida pelo Sebrae Roraima na Universidade Federal de Roraima.
Durante o evento, ela apresentou seus produtos, realizou degustações e ampliou a rede de contatos.
“O Sebrae abriu portas para mim. A JAE me deu visibilidade, credibilidade e permitiu que muitas pessoas conhecessem o meu trabalho. Já é a segunda vez que participo de uma iniciativa da instituição e sou muito grata por esse acompanhamento.”
Mesmo enfrentando desafios como a pandemia, perdas familiares, uma cirurgia e a maternidade, Maria nunca abandonou o sonho.
“Teve momentos em que a produção precisou parar, mas o sonho nunca parou”.
