
O CSE (Centro Socioeducativo Homero de Souza Cruz Filho) completa 30 anos neste domingo, 23. A data marca três décadas de atuação e também evidencia a transformação do trabalho socioeducativo em Roraima, que hoje busca unir responsabilização, garantia de direitos e oportunidades para os adolescentes.
Atualmente, os 16 adolescentes que cumprem medida na unidade estão inseridos na escolarização. No CSE funciona um anexo da Escola Estadual Nilo José de Melo, com Ensino Fundamental, Ensino Médio, EJA (Educação de Jovens e Adultos) e preparação para o Encceja-PPL (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos para Pessoas Privadas de Liberdade). Os estudantes recebem acompanhamento pedagógico, reforço escolar e avaliação individualizada.
Para a coordenadora Estadual de Políticas Públicas Socioeducativas da Setrabes (Secretaria de Estado do Trabalho e Bem-Estar Social), Carmen Hefigênia, as mudanças ocorridas ao longo das três décadas transformaram tanto a estrutura quanto a dinâmica dos serviços oferecidos. Segundo ela, atualmente a unidade está alinhada ao Sinase (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo) e conta com uma estrutura voltada à socioeducação.
“Durante esses 30 anos nós tivemos saltos grandes. Hoje temos condições de ter audiências dentro da instituição, saúde aqui dentro e diversos projetos parceiros. Cada ano foi um degrau que a gente galgou. Foram 30 anos de luta, conhecimento e superação de dificuldades”, destaca Carmen.
A rotina também inclui atividades esportivas, culturais e de leitura, como futsal, música, desenho, artesanato, canto coral e projetos como Plantando o Futuro, Clube de Leitura, SocioEducacine e Costurando Laços. As ações possuem objetivos pedagógicos e trabalham valores como disciplina, cooperação, criatividade, expressão e autoestima.
Qualificação profissional prepara para o futuro
Outro destaque é a preparação para o mercado de trabalho. Atualmente, os 16 adolescentes participam de ações de qualificação profissional. Entre abril e julho, considerando também jovens que passaram pela unidade no período, 25 foram capacitados.
Por meio de plataformas como Escola do Trabalhador 4.0, Sest Senat, Senar Virtual, CIEE Saber Virtual e Emprega Jovem, são disponibilizadas mais de 200 opções de cursos, incluindo formações em tecnologia, inteligência artificial, gestão rural e administração.
A preparação também envolve oportunidades de aprendizagem e Jovem Aprendiz. A equipe busca identificar os interesses e habilidades de cada adolescente para relacionar a qualificação ao seu projeto de vida.
Carmen destaca que as parcerias têm sido fundamentais para ampliar essas oportunidades e que a maioria dos adolescentes consegue ingressar no mercado de trabalho após deixar a unidade.
“O adolescente, quando sai daqui, depois dos cursos que ele passa, já sai e ingressa no mercado de trabalho. Isso é uma vitória grande que nós conseguimos, porque realmente a gente está conseguindo ressocializar esses adolescentes, eles estão sendo inseridos novamente na sociedade”, afirma.
O trabalho também envolve a preparação dos próprios profissionais. Segundo a coordenadora, os agentes socioeducativos passam por capacitações que contribuem para o desenvolvimento das atividades realizadas com os adolescentes.
Socioeducação como oportunidade
Para o gerente do CSE, Genildo Pedro da Silva, um dos principais desafios da socioeducação é mostrar à sociedade que a privação de liberdade é temporária e que, durante esse período, o adolescente deve ter acesso às condições necessárias para construir uma nova trajetória.
“Esse adolescente, através dessa oportunidade que é a socioeducação, ressignifica o seu futuro, ressignifica sua história. Através desse plano de vida que ele constrói dentro do sistema socioeducativo, ele voltará para a sociedade com uma nova linha de pensamento”, explica.
O atendimento é individualizado e conta com acompanhamento psicossocial, escuta qualificada, orientação às famílias e articulação com a rede de proteção e o Sistema de Justiça. O PIA (Plano Individual de Atendimento) estabelece metas e acompanha a evolução de cada adolescente durante o cumprimento da medida.
A participação da família também faz parte desse processo. O CSE realiza orientação, escuta e acompanhamento dos familiares, buscando fortalecer vínculos e identificar situações que demandem intervenção ou articulação com a rede de proteção.
Para a secretária da Setrabes, Célia Mota, o período de cumprimento da medida também deve criar condições para que os adolescentes construam novas perspectivas para o futuro.
“Durante esses 30 anos, o CSE passou por muitas mudanças, mas temos hoje um princípio muito claro: o adolescente precisa cumprir a medida socioeducativa, mas esse período também precisa oferecer condições para que ele possa construir uma trajetória diferente. É responsabilidade do Estado garantir educação, qualificação profissional, acompanhamento e oportunidades que contribuam para esse processo. Quando um adolescente volta a estudar, aprende uma profissão e começa a fazer novos planos para a vida, estamos avançando no propósito da socioeducação”, destacou.
Mudança percebida pela família
Para a mãe de um dos adolescentes atendidos pelo CSE, as mudanças também são percebidas dentro de casa. Ela conta que o filho voltou a estudar, passou a fazer cursos e apresentou mudanças no comportamento.
“Meu filho mudou muito, está transformado, educado, voltou a estudar. Aqui ele faz cursos, tudo que ele não fazia, está fazendo aqui. Eu acho o trabalho correto e justo. Eles merecem uma segunda chance”, relata.
Apesar de reconhecer as mudanças positivas durante o período na unidade, Orleide espera que o filho possa seguir um novo caminho depois do cumprimento da medida.
“Espero que ele saia e não entre aqui. É bom, mas não é o lugar dele. O lugar dele é em casa”, afirma.
Trabalho construído ao longo dos anos
O trabalho desenvolvido atualmente acompanha mudanças na própria compreensão da socioeducação. De uma concepção historicamente mais concentrada na contenção e na privação de liberdade, a política passou a incorporar uma abordagem que busca conciliar responsabilização, garantia de direitos e construção de oportunidades.
Nos últimos anos, a unidade ampliou projetos de horta, leitura, musicalização, atividades culturais e profissionalização, além de incorporar novas possibilidades de capacitação por meio da tecnologia.
O trabalho é realizado por 125 servidores e profissionais de diferentes áreas e conta com uma rede de parceiros nas áreas de educação, Justiça, saúde, assistência social e profissionalização.


