Coluna Ágora: Impercepções fragmentadas – Tom Albuquerque

Na década de 1990 tive acesso à impressionante obra “A Teia da Vida”, do magnânimo Fritjof Capra. No prefácio à edição brasileira me deparei com um conteúdo dos mais talentosos profissionais que já tive acesso, Oscar Motomura; e, no oportuno, fez ele menção à crise de percepção patente em nossa sociedade, apontando quão incapaz está a sociedade em enxergar o mundo de forma integrada.

Impressionou-me a forma instigativa postada pelo autor, por escancarar o descompasso entre a forma fragmentada e mecanicista como pensamos, e como o mundo realmente funciona: interconectado, complexo, holístico. Essa realidade, por sua amplitude, atinge os mais diversos flancos sociais, seja no campo privado, público ou de benefícios mútuos. As formas tradicionais de lidar com as premissas estratégicas que regem sociedade não cabem mais há tempos.

O século vigente tem ocasionado avanços científicos sem precedentes, conectividade instantânea e abundância de informação. Paradoxalmente, tornamo-nos cada vez menos capazes de compreender as relações que unem os fenômenos. Acumulamos dados, mas perdemos contexto. Multiplicamos especialidades, enquanto escasseamos sínteses. Sabemos cada vez mais sobre partes isoladas e, muitas vezes, cada vez menos sobre o funcionamento da teia social. É a premissa invocada de Sartre: “O homem está condenado a ser livre!”. Quem, nos dias atuais, tem coragem de se assumir?

Trata-se de desafios cultural e intelectual para velhos paradigmas sejam colocados às escâncaras. Historicamente, fomos educados sob uma lógica distinta alicerçada pelo pensamento enrijecido, e que produziu extraordinários avanços científicos ao decompor problemas em partes menores (e esse método foi, notadamente, indispensável para o progresso da humanidade). Ocorre que os grandes desafios contemporâneos deixaram de ser apenas complicados, tornaram-se complexos. E sistemas herméticos, por questões óbvias, não respondem adequadamente a soluções fragmentadas.

Nós, humanos,continuamos combatendo sintomas enquanto blindamos os mecanismos que os produzem;alteramos processos sem transformar lastros; reformamos matrizes sem rever mentalidades. A fragilidade da consciência coletivafrequentemente privilegia a lógica da competição em detrimento da cooperação; o ganho imediato em lugar do benefício compartilhado; a vitória individual acima da construção do bem comum. Naturalmente, a busca legítima por realizações pessoais faz parte da vida em sociedade. O problema surge quando desaparece a percepção de que prosperidade sustentável depende, inevitavelmente, da qualidade das relações que conectam indivíduos.

A tecnologia, concebida para aproximar pessoas, frequentemente produz um efeito ambivalente. Nós conectados e, ao mesmo tempo, tão confinados em ambientes de confirmação das próprias crenças. Os algoritmos aproximam semelhantes, filtram divergências e reduzem a exposição à complexidade. O diálogo cede espaço à reação instantânea; a reflexão é substituída pela velocidade; a profundidade, pelo envoltório permanente.

Eis a cultura do resumo, o conhecimento transformado em consumo acelerado de informações.A visão sistêmica deixa de ser apenas uma competência desejável para se converter numa necessidade civilizatória. Essa é a percepção-mor que devemos encarar.

(*) Tom Albuquerque é Administrador e Professor

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