
A lógica dos ajustes nos protótipos funcionais é extremamente óbvia: garantir o funcionamento da tecnologia para que ela entregue o que dela se espera com segurança. Contudo, esses dois focos (os benefícios e a segurança) muitas vezes decorrem de uma verdadeira batalha travada pelos cientistas, principalmente quando as inovações são classificadas como revolucionárias, isto é, aquelas que não têm similar algum, como foi o caso dos imunizantes contra a Covid-19. A razão desses desafios é, primeiro, que a funcionalidade precisa estar em consonância com alguns requisitos fundamentais que influenciam não apenas a entrega dos benefícios, mas também a sua continuidade ao longo do tempo, nas entregas sucessivas. Tecnicamente falando, a validação técnica e funcional precisa passar pelo crivo da usabilidade e da experiência dos usuários, da otimização dos recursos, da sistemática de iteração e refinamento contínuos e da comunicação e do alinhamento com os resultados esperados. Uma tecnologia, qualquer que seja ela, seja ela um imunizante ou uma aparente sequência didática, precisa dar conta dos procedimentos de validação e otimização para que seus benefícios sejam efetivamente entregues com segurança. É para isso que servem os ajustes e reajustes funcionais.
Os ajustes para a validação técnica e funcional têm o desafio de garantir que o protótipo seja aprovado quanto aos problemas técnicos identificados durante os testes preliminares, para que sejam corrigidos adequadamente. As correções de falhas focam na identificação e resolução de bugs, inconsistências e outros problemas que impedem o funcionamento adequado tanto das peças quanto dos componentes da tecnologia. O outro foco é verificar se o funcionamento do protótipo atende aos requisitos funcionais e não funcionais do projeto original, ou se o próprio projeto precisa ser tecnicamente atualizado e aperfeiçoado.
A usabilidade e a experiência do usuário são conceitos importados das práticas das tecnologias da informação e comunicação, que têm sido muito úteis no desenvolvimento de tecnologias em diversos campos. Sua finalidade é reduzir incertezas por meio da realização de ajustes e reajustes interativos que elevem a probabilidade de aceitação da futura tecnologia por seus clientes e usuários, aumentando sua credibilidade e acreditação junto a esses públicos-alvo. A otimização decorre dos esforços de ajuste que modificam o protótipo, aperfeiçoando o design e melhorando os processos de produção, o que leva à economia de tempo e dinheiro na produção em larga escala, no caso de tecnologias que serão lançadas no mercado. Esses ajustes são fundamentais para que o protótipo esteja preparado para a produção final, de modo que tanto as equipes de criação quanto os clientes estejam confiantes e ansiosos pela disponibilização da tecnologia.
Os ajustes e reajustes funcionais dos protótipos seguem uma sequência ciclotímica em que testes, ajustes, retestes e reajustes provocam alterações, resultando em melhorias contínuas nos projetos e nos artefatos físicos. Na verdade, essa ciclotimia persiste, inclusive após a entrega da tecnologia aos seus usuários, com melhorias e atualizações contínuas. A lógica da ciclotimia é a entrega de valor, decorrente da correção de deficiências e do refinamento de funcionalidades já consideradas adequadas. É preciso considerar, em cada fase e em cada ciclo, a conformidade com o cronograma de prototipagem, de modo que as alterações e melhorias possam ser realizadas sem comprometer o prazo de entrega. A cada ciclo, portanto, mais e mais valor é garantido, até que o protótipo possa ser considerado aprovado.
Nessas fases de ajustes e reajustes funcionais, o alinhamento e a comunicação são recursos fundamentais para o sucesso do protótipo. O envolvimento das partes interessadas (inventores, designers, clientes, stakeholders etc.) contribui para que suas múltiplas visões e interesses possam convergir e alinhar, de forma que as atualizações executadas estejam em conformidade com essa multiplicidade funcional. Além disso, quando há alinhamento dos múltiplos interesses, as incertezas tendem a se diluir ou a se amenizar consideravelmente, assim como o aumento da confiança dos diferentes públicos, pelo acompanhamento do progresso da prototipagem e pela demonstração de que os benefícios da tecnologia serão entregues.
Um fato que talvez muita gente não conheça é que uma coisa é a prototipagem e outra são todos os esforços de ajustes e reajustes para que ela funcione adequadamente: quando todos os ajustes e reajustes são feitos para corrigir as reprovações em todos os testes e retestes, o protótipo é elevado à condição de tecnologia. Contudo, e aí vem a surpresa: ele ainda não está pronto para o mercado. Está pronto, por exemplo, para o registro de patente e para todos os procedimentos legais e burocráticos. Para estar pronto para o mercado (dito tecnicamente, produção em larga escala), é necessário realizar os ajustes e reajustes que marcam a transição da tecnologia aprovada nos testes de protótipo para a tecnologia comercial. Os registros, por exemplo, que conferem ao artefato seu reconhecimento como algo que existe de fato, legal e tecnicamente, são uma das fases a serem cumpridas para a validação da produção em larga escala.
Os ajustes e reajustes nos protótipos funcionais vão muito além da correção de erros. A correção de erros é essencial, fundamental, sem a qual a futura tecnologia não poderá existir, mas é preciso garantir outros aspectos tão ou mais importantes para que ela seja bem-sucedida. Isso faz do estágio de ajustes e reajustes uma etapa estratégica voltada à validação de premissas e à otimização da iteração com os usuários e seus diversos públicos interessados, a fim de garantir a viabilidade técnica e mercadológica da nova tecnologia. Não basta, portanto, que a tecnologia funcione adequadamente. É essencial que ela seja capaz de se renovar, tanto em termos técnicos e funcionais quanto em matéria econômico-financeira e mercadológica, pois são esses recursos que garantem a continuidade do processo produtivo e, consequentemente, a validação da tecnologia como geradora de valor para seus públicos-alvo.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)