
Um protótipo processual é uma representação, seja ela diagramática ou simulada, das etapas pelas quais uma tecnologia é materializada. Sob o ponto de vista do MC-T, trata-se de uma sequência de atividades que incorpora conhecimentos a um determinado artefato físico ou extrafísico em cada uma delas. Esse tipo de protótipo é muito importante para a criação de artefatos em camadas, em que cada subproduto (subprotótipo) de cada camada é descrito por entradas, por uma transformação e por resultados a serem alcançados. O resultado de cada etapa será utilizado como matéria-prima para a seguinte, até que todo o artefato esteja concluído. É a partir dessa compreensão que os ajustes e reajustes desse tipo de protótipo devem ser compreendidos. Por essa razão, organizamos os tipos de ajustes e reajustes em etapas genéricas dos processos de inovação tecnológica, começando com os protótipos de baixa fidelidade e terminando com os decorrentes do monitoramento do desempenho junto aos usuários, com o uso de terminologias das tecnologias da informação e comunicação, cada vez mais populares entre os cientistas.
A lógica que orienta as inovações tecnológicas é a da ideação, construção, mensuração e aprendizagem, que configura o que a engenharia de produção e de produtos considera aprendizagem contínua. Dentre as comunidades científicas e tecnológicas, esse ciclo também é chamado de validação contínua, cujo desafio é garantir que a solução conceituada e em fase de materialização efetivamente atenda à necessidade com a qual está comprometida e que muitas vezes foi negociada com algum tipo de stakeholder.
Os ajustes e reajustes mais comuns a serem feitos nos protótipos, na fase de ideação e definição conceitual, são os relativos à clareza do problema a ser enfrentado e solucionado ou da oportunidade a ser aproveitada, de modo que haja o mínimo possível de distância entre o desafio e o protótipo. Os ajustes dessa etapa têm como finalidade o refinamento da proposta de valor a ser negociada e entregue, bem como dos requisitos de tecnologia. Outro ajuste muito importante e muitas vezes esquecido diz respeito à viabilidade conceitual, que tem como desafio tornar tecnicamente viável a materialização da ideia da tecnologia a partir das que já estão disponíveis e verificar se está em consonância com a estratégia da empresa, no caso de tecnologias que vão atender demandas de mercado. O terceiro tipo de ajustes e reajustes é o decorrente dos feedbacks dos stakeholders, para que o conceito do protótipo esteja em consonância com as primeiras impressões de todos os públicos interessados na futura tecnologia, o que é essencial para a validação do conceito e evita que haja investimentos em ideias não viáveis.
Na etapa de experimentação e validação dos protótipos, pelo menos quatro tipos de ajustes são geralmente realizados. Um deles é realizado para garantir a validação técnica e funcional, no qual os ajustes e reajustes concentram-se nas correções de problemas técnicos e nas falhas de usabilidade detectadas durante os testes experimentais. Outros tipos decorrem dos testes realizados junto aos públicos-alvo, principalmente os de usabilidade, que visam conhecer as maneiras pelas quais os usuários interagem com o protótipo, a fim de otimizar a experiência do usuário (UX). A otimização do desempenho é outro alvo de ajustes por experimentação e validação, cujo objetivo é refinar o protótipo para que ele entregue desempenhos em conformidade com os padrões de qualidade e os requisitos de eficiência estabelecidos pela equipe técnica com base nos testes realizados. O quarto grupo de ajustes e reajustes concentra-se nos custos e nos recursos do protótipo. A alteração precisa garantir que a futura tecnologia será financeiramente viável e que os investimentos a serem realizados justificam sua materialização. Por essa razão, os ajustes e reajustes são realizados em uma ampla variedade de arranjos e combinações de materiais e processos de produção, para que os custos sejam reduzidos ao máximo, sem comprometer a qualidade e os benefícios que a tecnologia precisa entregar.
A terceira etapa dos ajustes e reajustes em protótipos processuais é executada na implementação e na escala, geralmente com três focos. O primeiro é a integração da prototipagem com o sistema de produção, especialmente para as tecnologias que serão reproduzidas em grande escala, para garantir que as linhas de produção atenderão a todos os padrões de qualidade e aos critérios definidos pelos públicos-alvo. O segundo é a elaboração e a execução de um esquema de melhoria contínua, para que todos os ajustes e reajustes decorrentes das experiências reais de mercado possam ser atendidos. O terceiro foco está nos ajustes e reajustes decisórios, para que sejam ágeis e realizados na medida desejada pelos atores do mercado, de modo que não se perca a oportunidade de inovação e se garanta um nível elevado de competitividade mercadológica.
Os ajustes e reajustes processuais são fundamentais para que haja correspondência entre o que os públicos-alvo desejam ou necessitam e o que lhes será efetivamente entregue. Quando analisados sob a ótica longitudinal, ao longo do tempo, os procedimentos de aperfeiçoamento dos protótipos aumentam a probabilidade de adequação, pois representam validações contínuas, desde a fase de ideação até a de pós-entrega. A prática desses procedimentos representa o que atualmente se denomina processo de desenvolvimento interativo contínuo, no qual se envolve o maior número possível de interessados na tecnologia que se pretende materializar. Os ajustes e reajustes processuais são o refinamento da solução tecnológica até que ela consiga gerar o valor real para o negócio, e qual é esperado pelo cliente. A interação contínua permite a validação contínua do subprotótipo de cada etapa vencida, a minimização dos riscos de fracasso, a redução máxima dos custos sem comprometer a qualidade esperada e desejada e a entrega de uma tecnologia com alta probabilidade de sucesso.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)