Coluna C & T: Os testes de usabilidade – Daniel Nascimento-e-Silva

Os testes de usabilidade têm o grande desafio de aferir se o protótipo (e a futura tecnologia) é fácil de usar. Naturalmente que a palavra “fácil” é extremamente ambígua porque é decorrente de muitos aspectos subjetivos; contudo, os testes têm o grande poder de reduzir e até mesmo eliminar as ambiguidades, substituindo-as por categorias perfeitamente objetivas, o que, por sua vez, permite as intervenções através de ajustes e reajustes. O que esses testes procuram saber, portanto, é se os usuários terão ou não facilidade de interagir com a tecnologia ou utilizá-la de forma adequada e satisfatória. Como os fatores que incidem sobre a facilidade são inúmeros e a maioria muitas vezes é desconhecida, os testes de usabilidade conseguem identificá-los e descrevê-los com exatidão, de maneira que os cientistas poderão fazer os ajustes necessários apenas naquelas áreas em que as necessidades de melhorias foram detectadas.

A usabilidade é aferida com usuários reais, envolvendo-as em experiências reais de uso do protótipo em ambiente controlado. A finalidade é que se tenha a possibilidade de verificar todos os principais aspectos na relação da tecnologia com os usuários, visando identificar com adequação os pontos de confusão e dificuldades de operações, ou seja, o que lhes é desconhecido e em que aspectos não estão conseguindo fazer funcionar o protótipo. Muitas vezes, a melhoria da experiência é consequência dos ajustes no design, para eliminar os pontos de confusão, e da simplificação do funcionamento. Os testes de usabilidade são feitos no período de prototipagem, mas adentram as etapas de pós-vendas e pós-transferência, através de atualizações e aperfeiçoamentos contínuos.

Diversos são os benefícios que os testes de usabilidade permitem. Como os testes permitem identificar as áreas que precisam ser melhoradas, há o aprimoramento da experiência do usuário, fazendo essa experiência mais intuitiva e satisfatória. Partes e componentes do protótipo podem ser alteradas em suas posições e modificadas em seus desenhos, manuais de operações podem ser refeitos, tornando a linguagem mais acessível e compreensível, os mecanismos podem ser simplificados e tornados mais intuitivos, dentre inúmeras outras formas através dos quais os testes de usabilidade podem ajudar a reduzir erros e confusões, oriundos das experiências com usuários reais.

Um dos desafios pretendidos pelos testes de usabilidade é a melhoria da eficiência, entendida como o melhor funcionamento possível do protótipo e da tecnologia em conformidade com a facilidade de sua operação. A eficiência é traduzida em termos de facilidade de uso e operação de forma rápida e intuitiva. Se a eficiência é garantida, é altamente provável que os resultados pretendidos com a operação sejam garantidos, garantia que é traduzida em termos de eficácia. Se o protótipo se faz eficiente e eficaz nos testes de usabilidade, a consequência naturalmente esperada é o aumento da satisfação do usuário, que é a expressão do grau de conformidade daquilo que se espera da tecnologia e aquilo que ela efetivamente entrega. Quanto maior for o grau de satisfação do usuário, maior tende a ser o uso do produto final, a lealdade à marca ou equipe de inventores e, em última análise, os lucros do empreendimento, se a tecnologia tiver interesse comercial e mercadológico. Disso decorre que, ainda que o teste de usabilidade foque a funcionalidade da tecnologia, seus desdobramentos ultrapassam as fronteiras relacionais do usuário com o protótipo, adentrando diversos outros campos da cadeia de produção e distribuição da tecnologia, de forma que os resultados servem para a tomada de decisões baseadas em dados reais para esses diversos aspectos dos esforços de geração e disponibilização tecnológica.

As estratégias metodológicas geralmente utilizadas para realizar os testes de usabilidade envolvem, primeiro, o mapeamento dos pontos-chaves a serem avaliados, que configuram os aspectos do protótipo que terão mais atenção dos pesquisadores. Em seguida são selecionados os participantes, como uma amostra válida da população de públicos-alvos da tecnologia, principalmente em suas características demográficas e de demanda. O método prossegue com a especificação das tarefas que os componentes da amostra terão que realizar durante os testes, tendo como base, naturalmente, os pontos-chaves listados na primeira etapa. A próxima etapa é a de observação e registro das diferentes formas através das quais os participantes interagem com o produto, atentando-se às suas reações e dificuldades. Se a observação for participante, os pesquisadores podem elaborar esquemas de esclarecimentos que lhes permitam compreender as reações e dificuldades dos usuários. Depois dos registros das experiências dos usuários, os pesquisadores analisam os dados coletados para compreender com precisão os pontos-chaves listados na primeira etapa e outras questões descobertas durante a experiência dos usuários com a finalidade de identificar os focos das melhorias a serem feitas no protótipo. A última etapa é relativa à implementação das mudanças para aprimorar a experiência do usuário com a futura tecnologia. Muitas vezes é recomendável uma segunda rodada de teste de usabilidade, feita depois dos ajustes, que chamamos de reteste.

É muito importante atentar para o que é e o que não é teste de usabilidade. Há muitos tipos de testes relativos aos protótipos, de maneira que se corre o risco de imaginar que todos eles estão voltados para a funcionalidade. É preciso atentar, contudo, que o que caracteriza a usabilidade é o uso, o manuseio da tecnologia. Por essa razão, os dados e informações coletados através de levantamentos com um grande número de pessoas através de entrevistas não pode ser considerado teste de usabilidade, da mesma forma que as discussões em grupos focais, tanto virtual quanto fisicamente, não o são. Os testes de usabilidade precisam ter como foco a observação do uso, do manuseio da tecnologia, de forma que os pesquisadores precisam ver o uso sendo feito. Muitas vezes é necessário que esse uso seja observado várias vezes, como se faz com as filmagens, para que se tenha a compreensão desejada para os aspectos obscuros da funcionalidade da tecnologia.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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