Coluna C & T: Testes e retestes ambientais – Daniel Nascimento-e-Silva

Muitas tecnologias causam e sofrem impacto do meio ambiente. As ciências organizacionais consideram o ambiente como um espaço delimitado de alguma forma. Uma empresa industrial tem o seu espaço delimitado fisicamente pelos muros ou algum marco que mostra a separação de sua área interna das áreas externas, como se fosse uma fronteira entre essas duas dimensões físicas. Se essa mesma empresa, por outro lado, operar em outros territórios e países, essas áreas geográficas passam a ser seu ambiente de operações ou de negócios, configurando uma diferente concepção ambiental. O que queremos mostrar é que há diferentes ambientes e cada um deles precisa ser conhecido pelas equipes de geração de tecnologia para que possam auferir as vantagens e oportunidades e se precaver contra as desvantagens ou ameaças que todo ambiente apresenta. As ciências organizacionais apontam ainda, de forma geral, que os ambientes, quaisquer que sejam, podem ser divididos em internos e externos. O ambiente interno de uma instituição escolar, por exemplo, corresponde à parte interior dos seus muros delimitadores, enquanto o ambiente externo é tudo o que está do lado de fora. No caso das tecnologias, o ambiente interno é a própria tecnologia e seus componentes, estudados sob a ótica dos protótipos relacionais, e o ambiente externo é tudo o que está além deles.

Toda tecnologia é criada com a finalidade de provocar impactos ambientes. Um imunizante provoca impacto no corpo humano, que é seu ambiente externo de operações, da mesma forma que uma hidrelétrica o faz a partir da geração de energia, cujo impacto é o seu aproveitamento para diversos fins. É através dos impactos ambientais que a tecnologia cumpre a sua missão de resolver problema ou suprir necessidades, de maneira que ela é deliberadamente produzida para essas duas finalidades, que poderão ser denominadas de externalidades positivas. Por outro lado, o ambiente exerce influências sobre as tecnologias gerando consequências diversas, principalmente reduzindo sua capacidade de suprir as necessidades e resolver problemas a que foram deliberadamente criadas. Os desgastes que sofrem determinados metais que são matérias-primas de componentes de determinados produtos são um exemplo bem compreensivo, da mesma forma que os assoreamentos de rios reduzem a capacidade de armazenamento de água para a geração de energia hidrelétrica. Isso significa, na prática, que os protótipos precisam dar conta desses impactos exteriores em forma de testes e retestes, para que possam ser considerados tecnologias finalizadas, quando forem neles aprovados.

Os testes e retestes da tecnologia sobre o ambiente de operações podem ser divididos em positivos e negativos. Os positivos são aqueles esperados como desempenho da tecnologia, pontos centrais para a entrega dos benefícios para os seus públicos-alvos; os impactos negativos são as consequências nocivas que as tecnologias podem apresentar e que precisam ser, de alguma forma, mitigadas e até mesmo eliminadas, uma vez que podem representar desproporcionalidades na relação custos-benefícios. As desproporcionalidades, consequentemente, precisam ser avaliadas para que orientem os cientistas a produzirem os ajustes e reajustes necessários nos protótipos para que os impactos negativos indesejados possam estar em conformidade com os padrões e critérios de funcionamento considerados adequados.

Os testes e retestes inversos, relativos aos impactos que os ambientes de operações exercem sobre as tecnologias, agem reduzindo ou elevando a capacidade de entregas aos seus públicos-alvos. Esses testes precisam focar diversos aspectos e parâmetros ambientais para aferir adequadamente em que, como e por que afetam o funcionamento do protótipo em construção. Calor e umidade, por exemplo, podem afetar diferentes peças e componentes de vários tipos de tecnologias, como as compostas por metais sensíveis às oscilações dessas condições ambientais. De forma inversa, determinados aspectos e condições ambientais podem elevar a capacidade da tecnologia em entregar benefícios, como são os casos das manutenções preditivas e preventivas regulares feitas pelas organizações onde máquinas utilizadas no processo de produção são utilizadas.

Certa vez uma equipe de cientistas da educação criou uma cartilha eletrônica com o intuito de ensinar às crianças em idade pré-escolar a conhecerem os números e as letras. Previram e testam três protótipos, decidindo-se pelo que consideraram o mais promissor, porque o desempenho esperado estava em conformidade com o que os públicos-alvos desejavam. Essa conformidade foi considerada o impacto ambiente pretendido. Contudo, meses depois de sua utilização pelas crianças, percebeu-se que a tecnologia vinha reduzindo de forma crescente a sua demanda e utilização. Um levantamento feito pela equipe de criação descobriu que os pais não estavam mais comprando a tecnologia porque uma das peças feria as mãozinhas das crianças, caracterizado como impacto negativo da tecnologia sobre o ambiente. A equipe substituiu a matéria-prima daquela peça por outra mais segura e refez o lançamento do produto, obtendo-se a inversão do problema indesejado. Os testes de segurança de uso, portanto, não cobriram essa particularidade porque os cientistas que manuseavam o protótipo geralmente o faziam com o uso de luvas protetoras, os chamados equipamentos de proteção individual (EPI), que as crianças que operavam a tecnologia não tinham.

Os impactos ambientais podem ser vistos (e são efetivamente) uma maneira particular dos chamados protótipos relacionais porque dão conta de aferir se a tecnologia causa os impactos desejados sobre os seus meios ambientes de operações com segurança, economia, satisfação e outros itens considerados essenciais pela equipe de criação tecnológica. São ainda muito poucos os relatos científicos desse tipo de teste e reteste, a não ser quando a tecnologia é alvo de regulamentação oficial, como são os casos das que manuseiam matérias-primas perigosas, como os equipamentos de raios-x e similares que têm material radioativo em sua composição. O fato, contudo, é que toda tecnologia precisa identificar e testar determinados parâmetros ambientais, tanto da tecnologia sobre o ambiente quanto, inversamente, do ambiente sobre a tecnologia. Muitas vezes esses testes e retestes trazem às equipes de cientistas melhorias positivas surpreendentes ou evitam desastres que, sem eles, certamente ocorreriam.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

Veja também

Topo