
Alguém poderia argumentar, com toda a razão do mundo, que os testes mais adequados para as entradas de dinheiro para um negócio tecnológico sejam chamados de “testes de receitas”. Mas essa é uma visão especializada da questão. Para que ela seja compreendida, é importante que se façam dois entendimentos. O primeiro é em relação a “fatura” e “nota fiscal”, em que a primeira é um documento comercial (que retrata uma transação entre comprador e vendedor) e financeiro (que especifica certa quantidade de dinheiro), que comprova que uma transação foi efetivada; a nota fiscal, por seu turno, é um documento fiscal (que representa uma entrada ou compromisso de repasse de dinheiro para o governo) e obrigatório que comprova a transação perante o setor público para que este faça a cobrança do imposto devido. O segundo entendimento é em relação ao faturamento (prática da emissão de faturas) e receitas (entrada efetiva de dinheiro no caixa de uma organização), em que o faturamento é o total de dinheiro registrado em documentos fiscais em um determinado período, enquanto a receita é a entrada efetiva daquele dinheiro registrado, no todo ou em parte, no caixa da organização. Essa entrada, quando considerada no valor total, é chamada de receita bruta; quando descontados os impostos, devoluções e outras despesas. Por extensão, o faturamento é o termo adequado para designar expectativas de entrada de dinheiro no curto, médio e longo prazo, que são justamente os horizontes de tempo que precisam ser considerados na composição dos planos financeiros de empreendimentos tecnológicos.
Os testes de faturamento, de forma geral, podem ser divididos em dois grupos, em consonância com os diferentes contextos de negócios tecnológicos. O primeiro é como um plano estratégico de um negócio focado em três dimensões analíticas e operacionais. A primeira é a definição das metas de faturamento que a organização ou o negócio tecnológico precisa ou pretende alcançar. A segunda é a especificação ou determinação temporal de quando as entradas de recursos vão acontecer, geralmente divididas em curto (até doze meses), médio (de um a cinco anos) e longo prazo (acima de três anos). E a terceira é capacidade da organização ou do negócio tecnológico de disponibilizar os recursos necessários para alcançar as metas estratégicas que se pretende alcançar, uma vez que todo alcance de objetivos e metas consome recursos. É a partir da determinação do faturamento e suas especificações que se pode, calcular o custo dos recursos (meios) e aferir a viabilidade de um empreendimento tecnológico.
O segundo grupos dos testes de faturamento pode ser chamado de modelo de cobrança pelos serviços e produtos tecnológicos vendidos ou distribuídos. Esses testes geralmente procuram abarcar quatro focos dos desafios de faturamento. O primeiro é a flexibilidade da cobrança, que é baseada na quantidade de usuários ou consumidores dos produtos e serviços que se pretende vender ou distribuir em determinado horizonte de tempo, como se fosse um plano diário, semanal, mensal, anual ou temporal. O segundo é a própria temporalidade, que está relacionado com a quantidade de tecnologias vendidas ou distribuídas, de maneira que o horizonte de tempo é que servirá de base para a testagem do faturamento. O terceiro é relativo ao marco, com o sentido de parcelamento das entradas de dinheiro, de maneira que um marco se completa quando a última parcela for paga, podendo começar outro marco e suas respectivas frações de pagamentos. O quarto foco é a periodicidade, mais praticada para serviços como os de licenças de uso da tecnologia, com cobranças regulares através de contratos periódicos, com renovação automática ou não. Esses focos representam a operacionalidade do modelo de negócio para que o faturamento possa acontecer e que, como o fluxo de entrada de dinheiro determina o sucesso ou fracasso do empreendimento, precisam ser criados e testados com adequação.
A criação e efetividade aferida dos testes de faturamento têm quatro desafios fundamentais. O primeiro é a garantia da previsibilidade financeira, que permite ver com antecedência e exatidão elevada a quantidade de dinheiro que provavelmente vai entrar para a organização ou para o negócio e garante um capital de giro e reservas adequadas. O segundo é a organização financeira do empreendimento tecnológico, em que entradas e saídas de dinheiro se fazem previsíveis e compreensíveis na dinâmica do negócio, de maneira que o fluxo financeiro se equilibre. O terceiro é o suporte ao planejamento de investimentos, que é o que provoca a melhoria e aperfeiçoamento tecnológico, que leva à expansão do negócio. O quarto é o gerenciamento equilibrado dos riscos, em que cada um deles é previamente definido e calculado em suas probabilidades de ocorrências a partir da proximidade ou distanciamento das metas de faturamento dos períodos, identificando-se as causas e suas adequadas anulações.
A falta dos testes de faturamento traz pelo menos sete decisivas complicações à geração tecnológica. A primeira é o descontrole financeiro, impedindo o conhecimento das receitas e despesas; a segunda é a alocação ineficiente dos recursos, principalmente pessoal, tecnologias, materiais e infraestrutura; a terceira é a dificuldade em atrair investimentos, justamente porque o cronograma físico-financeira é exigência obrigatória; a quarta é o comprometimento da sustentabilidade do negócio por falta de clareza dos desdobramentos financeiros de longo prazo; a quinta são as decisões estratégicas erradas porque não serão baseadas em testes cofiáveis e válidos; a sexta é a falta de direção, porque os testes financeiros funcionam como balizadores dos objetivos a serem alcançados; e a sétima é a perda de competitividade justamente porque os demandantes tenderão a procurar concorrentes mais profissionalizados no gerenciamento financeiro de seus empreendimentos tecnológicos.
Os testes de faturamento permitem a elaboração de planos claros e otimizadores de recursos porque mostram a previsibilidade financeira e sua probabilidade de acontecer, impulsionando o desenvolvimento do empreendimento tecnológico. O desenvolvimento é materializado na inovação que os mercados anseiam e que, por ela, estão dispostos a pagar. A probabilidade desses registros é o foco dos testes de faturamento.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)