Coluna C & T: Testes de segurança – Daniel Nascimento-e-Silva

Os testes de segurança têm sido cada vez mais utilizados nas diversas fases de prototipagem, de maneira que é bastante difícil encontrar protocolos de geração de tecnologias que pelo menos alguns deles não estejam ali previstos. Anteriormente imagina-se que as tecnologias só apresentavam benefícios, com os malefícios sendo enquadrados em uma grande categoria de irrelevantes. À medida que o tempo passava e mais e mais tecnologias eram geradas e utilizadas nos mais diversos campos da vida humana associada, descobriram-se grandes e profundos impactos, a maioria deles acontecendo de forma incremental, lentamente ao longo do tempo, com alguns deles se transformando em triste e irreversível realidade. Há os perigos que afetam o indivíduo isoladamente, tanto em sua saúde física, quanto mental, assim como também há os que se podem caracterizar como organizacionais, quando toda uma coletividade limitada é colocada em risco, como no caso de empresas, e os sociais, incluindo aqueles que são decorrentes das desigualdades que uma tecnologia é capaz de provocar ou acentuar. Os riscos, descobriu-se depois empiricamente, são a contraparte do que se chama atualmente de segurança, de forma que quanto maiores eles forem, menor é a possibilidade de segurança, e vice-versa. Os testes de segurança procuram aferir o quanto uma tecnologia é segura para o uso porque não apresenta riscos para a saúde do consumidor, operador ou usuário.

Os testes de segurança são, portanto, testes acerca dos riscos que um protótipo pode apresentar. A ciência tem relatado pelo menos três fontes de riscos que as tecnologias têm causado. A primeira delas é relativa ao comportamento do indivíduo, advindo do uso excessivo de tecnologias, que podem levar ao isolamento e à dependência, assim como causar danos ao corpo, como visão e audição, nos exemplos dos dispositivos eletrônicos, e ansiedade e depressão, nos mais variados tipos tecnológicos. A segunda fonte de danos é focada nos ataques e roubos, principalmente de dados e informações que as tecnologias cada vez mais inteligentes permitem, mas também o furto das próprias máquinas e equipamentos, que se tornam cada vez menores e móveis. A terceira é relativa ao poder excessivo que a posse e o controle de tecnologias cada vez mais poderosas proporciona, o que pode causar e intensificar desigualdades sociais e a dependência, mas também aumenta o risco de seu uso desnecessário e inadequada, como as tecnologias de defesa, incluindo nesse rol as tecnologias físicas e químicas criadas para outras finalidades. Os testes de segurança dos protótipos e das tecnologias precisam ser planejados, executados e monitorados os riscos e desconformidades nesses três prismas: individual, ataques e poder.

O risco é a probabilidade, a chance de algo adverso acontecer. A segurança é a garantia de que essa chance ou probabilidade é mínima ou inexistente. Disso resulta que o primeiro teste é definir a probabilidade de ocorrência. Um medicamento pode ter, por exemplo, a garantia de 40% de eficácia, enquanto outro apresenta 90%, mas com a diferença de que os efeitos colaterais nocivos do primeiro podem ser muito menores do que a do segundo. É preciso listar esses efeitos adversos e calcular a probabilidade de ocorrência, para que os usuários e clientes possam tomar ciência e saber como preveni-los e, se não for possível, como lidar com eles. Disso vem que os testes de segurança, em situações parecidas, devem incluir as adversidades possíveis, a probabilidade de ocorrer, seus sintomas e manifestações, como evitar a adversidade de cada uma delas e como agir, se elas se manifestarem.

O tempo é outro aspecto fundamental nos testes de segurança de protótipos e tecnologias. Muitos riscos não acontecem imediatamente à exposição ou uso de uma tecnologia. A maioria precisa de tempo e uma certa quantidade de uso e exposição para que possa se manifestar. O uso esporádico de equipamentos de raios-X, por exemplo, não coloca em perigo o usuário, mas as inúmeras operações diárias comprometem a integridade física e mental do operador se passarem de uma determinada frequência ou além de um tempo especificado. Os testes temporais precisam dar conta dos tipos de danos, quais são seus sintomas, como eles se manifestam, como prevenir e como tratar os casos já manifestados.

Os testes de segurança não visam apenas a garantia tácita ou formal de que a tecnologia a ser entregue é segura. A segurança não é constituída por palavras ou documentos em que o causador da adversidade, dano ou perda se compromete a repará-lo. Os testes de segurança têm como foco uma sistemática de operações que vão desde a apresentação dos resultados dos testes, passando pelos procedimentos de ocorrência e ação contra os riscos, terminando com as formas de responsabilização dos responsáveis. É por isso que a segurança pode ser tomada como a totalidade dos eventos e ações relativas à probabilidade de ocorrência das adversidades, danos e perdas devidamente listadas pela equipe de cientistas que produzem determinada tecnologia.

Disso advém que os testes de segurança precisam dar conta de todos os tipos de consequências indesejáveis que o protótipo e a futura tecnologia podem apresentar, destacando as de maiores probabilidades, mas sem esquecer as menos plausíveis, em conformidade com os testes especificamente realizados para esse fim. Essas consequências podem incluir uma gama muito grande de riscos, que vão desde a soltura de um determinado fio elétrico que paralisa a tecnologia, até fatores externos, como incêndio, inundação, vírus, morte, perdas econômicas etc. São o conhecimento de resultados “inesperados” e perigos que configuram os estados de incertezas que o futuro pode materializar.

A segurança é ausência quase completa de risco. Ela é composta por um conjunto de mecanismos para proteger os usuários, operadores e consumidores dos efeitos nocivos que toda tecnologia tem, uma vez que tudo o que o ser humano faz apresenta, em maior ou menor grau, imperfeições. Os testes visam à proteção das pessoas em relação às tecnologias, garantindo principalmente a sua integridade física e mental, além de outras consequências, como as financeiras e morais.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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