Coluna C & T: Testes e retestes processuais – Daniel Nascimento-e-Silva

Os testes e retestes do processo de inovação tecnológica podem ser divididos em diversas etapas e de diversas formas. Sob o ponto de vista longitudinal, em que se pode vislumbrar todas etapas do processo de inovação, há os testes voltados para a garantia de que a quantidade de etapas de produção são adequados para gerar o resultado desejado, o que significa que não há etapas a mais ou a menos do que o necessário; há os testes de qualidade dos subprodutos que devem ser gerados pelas etapas fornecedoras e entregues às etapas clientes; e os testes de resultados, voltados para aferir se o protótipo entrega os benefícios que a tecnologia deve entregar. Estes podem ser chamados de testes internos do processo de produção. Há também os testes externos ao processo produtivo, mas ainda a ele vinculados, como os testes econômico-financeiros, capacidades de produção, jurídicos, mercadológicos etc., que podem ser chamados de testes de produção. Há os testes que vinculam a organização produtora da tecnologia com os seus públicos-alvos, como os logísticos, tecnológicos, ecológicos, políticos, sociais, demográficos, legais e econômicos, que podem ser denominados interorganizacionais. Isso mostra que os processos são um sucedâneo de etapas, que começam com a configuração das etapas que geram o protótipo e terminam com as etapas que levam à conformidade da tecnologia gerada com as diversas condições que sustentam o relacionamento de quem produz a tecnologia com quem as demanda ou usufrui.

Os testes e retestes de linha de produção ou de processos internos de produção focam na busca de respostas a duas questões centrais: 1) o que é feito e 2) como é feito. Aplicada a uma etapa, a resposta à primeira questão identifica o subproduto a ser gerado e entregue à etapa seguinte, enquanto a resposta à segunda descreve o passo a passo que a etapa deve seguir para materializar a sua produção. Outras questões adicionais podem e precisam ser feitas para que haja o aprimoramento contínuo de cada etapa, como as contidas em diversas ferramentas de análise processos e de produção, como o PDCA, DMAIC e outras. Os testes de produção, em última análise, focam os produtos semiacabados para garantir que estejam em conformidade com o que é esperado pelas etapas-clientes. Esses testes e retestes precisam ser aplicados porque eles conseguem identificar problemas suas causas, mapeadas com técnicas do tipo raiz de falhas e árvore de problemas. Além disso, conseguem garantir que a qualidade do protótipo seja consistente com a tecnologia que se pretende gerar, de maneira que consiga entregar os benefícios que os clientes finais almejam.

Os testes e retestes de produção são aqueles que estão voltados para o que se poderia chamar de sistema integrado de produção. A linha de produção ou processo de produção da tecnologia está conectada com as atividades-fim e atividades-meio em qualquer organização ou instituição de ciência e tecnologia. Em uma universidade pública, por exemplo, a geração de tecnologia está sujeita a uma série de procedimentos burocráticos que precisam ser seguidos, que vão desde o disciplinamento da carga horária de trabalho diária, semanal e mensal a especificações de importação de peças e componentes do estrangeiro. Além disso, há que se relacionar com os ditames jurídicos e impedimentos comerciais, que uma empresa privada não terá. Embora o recomendável seja que todas as atividades-fim e atividades-meios estejam a serviço da geração da tecnologia (que é atividade-fim), muitas vezes a burocracia faz o inverso, de maneira que há que haver alterações no processo de produção do protótipo e nos procedimentos organizacionais que vão além da linha de produção tecnológica.

Planos de marketing, planos de investimentos e plano de expansão da capacidade física são três exemplos de aspectos processuais organizacionais que estão vinculados à geração da tecnologia. É preciso, portanto, que se estabeleçam etapas para elaboração, implementação e monitoramento desses planos organizacionais para que estejam em sintonia com o que o processo de produção da tecnologia é capaz de sustentar. É como em linha de produção de um produto ou bem de consumo, em que a prototipagem precisa ser testada nas suas etapas de geração do protótipo, mas também em suas etapas de produção da tecnologia, depois que o protótipo for considerado aprovado. Esses testes podem ser feitos de maneira simultânea ou depois de o protótipo ser considerado bem-sucedido.

Os testes ambientais ou interorganizacionais são uma espécie de mapa de segurança do esquema de relacionamento da organização geradora de tecnologia com o seu ambiente de operação. Aqui nesta dimensão estão, por exemplo, os modais de transportes que vão entregar as matérias-primas para a confecção do protótipo e da produção da futura tecnologia, assim como os modais que vão ser utilizados para a entrega da tecnologia aos seus clientes e usuários. Perceba que a entrega de um produto começa com um pedido feito pelo cliente, passa por uma série de etapas que vão desde a recepção do pedido, a produção da tecnologia e a entrega efetiva, incluindo a avaliação do desempenho e da satisfação dos clientes. O mesmo esquema lógico se aplica à atualização das tecnologias disponíveis no ambiente e que podem ser demandadas pela organização para serem utilizadas no aperfeiçoamento da tecnologia ou nas atualizações das leis que disciplinam, direta ou indiretamente, a sua produção.

Os testes e retestes de processos focam as etapas da geração da tecnologia, as etapas de integração com as outras atividades-fim e meios da organização e as etapas de atendimento das condições ambientais externas. Isso mostra que há microprocessos, processos e macroprocessos de produção tecnológica, que sempre começa com a análise das necessidades do ambiente externo e sempre terminam com a aferição da conformidade da tecnologia que é entregue para fazer o suprimento da necessidade com o que os seus públicos-alvos efetivamente desejam. As desconformidades precisam ser reprocessadas, para que ganhem conformidade; as conformidades também, para que melhorem continuamente.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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