
A logística é uma dimensão das inovações tecnológicas praticamente esquecida. E a razão, ao que tudo indica, é simples: puro desconhecimento em múltiplas formas. Uma dessas formas é o fato de que sistema de produção exige um sistema igualmente eficiente de distribuição, por um lado, e de suprimento, de outro. O sistema de distribuição faz a entrega das tecnologias geradas aos seus clientes (compradores, usuários ou consumidores); o sistema de suprimento é encarregado de abastecer a linha de produção da tecnologia com as matérias-primas, materiais e serviços necessários para alimentar o sistema produtivo. Há que haver equilíbrio entre os fluxos desses dois lados para que se tenha o que os cientistas chamam de supply chain, que começa com os pedidos dos clientes aos ofertantes de tecnologia e termina com o fornecedor de última camada (aquele que começa a produzir); volta deste último fornecedor fazendo a entrega da produção aos outros componentes da cadeia de distribuição até a entrega da tecnologia ao cliente; que recomeça o fluxo logístico ao fazer o pagamento da tecnologia recebida, que é repassado para cada fornecedor, finalizando o terceiro fluxo. A logística trata, portanto, de um fluxo de informação (do cilente para os fornecedores), um fluxo de produção (dos fornecedores até o cliente) e um fluxo financeiro (do cliente aos fornecedores). Esse esquema lógico é desconhecido.
Daí vem que é preciso criar e testar a logística das inovações tecnológicas, para que possa efetivamente ter probabilidade de sucesso. Esses testes se concentram sobre a organização, planejamento, controle e execução do fluxo de mercadorias, dinheiro e informações e precisam abarcar o processo de compras de suprimentos, o fluxo de produção e a entrega dessa produção ao cliente (consumidor, comprador ou usuário). Em muitos casos, é preciso também criar e testar uma logística reversa, que faz o caminho contrário, com o desafio de fazer retornar aos geradores das tecnologias os componentes ou resíduos tecnológicos. Atualmente, o grande desafio é a construção de sistemas logísticos ambientalmente sustentáveis, em que o equilíbrio faz parte das atividades gerais da logística, que são o transporte, armazenagem, distribuição e reaproveitamento dos materiais em conformidade com os ditames de redução ao máximo da emissão de carbono e da economia circular. Mas como se criam esses testes? Geralmente são percorridas sete etapas.
A primeira etapa é a criação e teste da infraestrutura logística. São criados e simulados os armazéns, centros de distribuição e veículos que precisam ser utilizados para se aferir se estão em conformidade com as especificidades da tecnologia que será distribuída. Os armazéns devem prever tanto as matérias-primas e materiais quanto as tecnologias em processo (Work in progress) e finalizadas. Em seguida é feita a identificação, escolha e validação das tecnologias que serão utilizadas no sistema logístico, que constitui a segunda etapa dos testes logísticos. Atualmente são incorporadas tecnologias de ponta, inovadoras, como automação, internet das coisas, inteligência artificial e softwares de gestão (como os TMS, softwares de gestão de transporte e movimentação de mercadorias) para monitoramento de processos logísticos e tomadas de decisão.
A terceira etapa contempla os testes de roteamento e roteirização, em que são simulados a organização das tecnologias e o planejamento das rotas mais adequadas. Tomam-se como parâmetros variáveis de tamanho, fragilidade, condições de tráfego, modais e clima, com o intuito de garantir entrega eficiente. Em seguida aparecem os testes de simulação de experiência do cliente, que é a quarta etapa, com a finalidade de garantir a entrega mais pontual, segura e precisa, de maneira que se tenha o máximo possível de satisfação dos clientes.
A quinta etapa ou série de testes foca a validação da segurança e rastreabilidade da tecnologia a ser distribuída. Os focos desses testes são a eficácia da entrega e o acompanhamento em tempo real, para que se garanta a segurança e a transparência da operação, feitos através de tecnologias modernas, como a internet das coisas e blockchain. A sexta etapa é o teste de custo-benefício do sistema logístico, quando são avaliados os impactos dos custos logísticos sobre as finanças globais do empreendimento tecnológico. A finalidade dos testes de custo-benefício é reduzir ao máximo os gastos de distribuição e otimizar o uso de recursos e dinheiro ao longo de toda a cadeia de logística global. O sétimo e último grupo de testes são os ditos testes de resiliência, com o desafio de aferir se a cadeia logística está adaptada e preparada para enfrentar e superar os desafios e imprevistos comuns de distribuição, principalmente a variação na demanda e problemas de entrega. É preciso, para isso, que o sistema gerado tenha a flexibilidade e a adaptabilidade necessárias para funcionar apesar de qualquer adversidade.
Os sistemas logísticos contemporâneos têm utilizado cada vez mais suportes e meios tecnológicos para ganharem agilidade e segurança com elevada relação custo-benefício. As tecnologias mais bem-sucedidas e utilizadas são os veículos autônomos e drones, que fazem a entrega rápida e inteligente; internet das coisas e big data, que analisam os padrões de demanda e fazem as previsões de entrega e otimização de rotas; a internet das coisas, para fazer o rastreamento em tempo real da entrega das tecnologias e o gerenciamento das condições e ambientes de transportes; e os softwares de gestão de transporte (TMS), que otimizam rotas e gerenciam documentos de transportes.
A equipe de criação tecnológica não pode se contentar apenas com a maestria na materialização de artefatos inovadores que solucionam problemas. É preciso que se envolvam também nos desafios das entregas dessas inovações aos seus públicos-alvos, assim como na escolha das matérias-primas, materiais e serviços adequados para realizar a produção, além da participação no armazenamento temporário das inovações na sua própria organização ou instituição. As tecnologias atualmente disponíveis permitem esse compartilhamento de informações, conhecimentos e ações, de modo que se tenha um artefato que resolve problemas, mas que seja entregue sem danos, no tempo certo, no lugar certo e com o preço certo. Esse é, em suma, o desafio dos testes logísticos de tecnologias.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)