Operação Castigare: sete investigados são presos por homicídio ligado a “tribunal do crime” em Boa Vista

Entre os presos estão três mulheres: K. T. V., 35 anos; K. S. O., 29 anos; P. C. S., 39 anos. Também foram presos quatro homens: C. B. M. S. M., 25 anos; J. H. S. A., 21 anos; J. H. A. N., 37 anos, e R. M. R. O., 29 anos. – Fotos: Ascom | PCRR

A PCRR (Polícia Civil de Roraima), por meio da DGH (Delegacia-Geral de Homicídios), prendeu sete pessoas, sendo três mulheres e quatro homens, investigadas pela morte de Cauã Vinícius Castro da Silva, de 21 anos, executado no contexto de um chamado “tribunal do crime”. A Operação Castigare foi deflagrada na quarta-feira, 26, em diferentes bairros de Boa Vista, e encerrada na madrugada desta quinta-feira, 27, com o cumprimento de 11 mandados de prisão e 15 de busca e apreensão, além de prisões em flagrante e apreensão de drogas, com apoio da GCM (Guarda Civil Municipal).

Os detalhes da operação foram apresentados durante coletiva de imprensa realizada na manhã desta quinta-feira, 27, na sede da Delegacia-Geral. Participaram a delegada-geral da PCRR, Simone Arruda; a diretora do DHPP (Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa), delegada Míriam Di Manso; e o delegado titular da DGH, João Evangelista, responsável pela condução da investigação.

Segundo João Evangelista, a operação contou com a participação dos delegados da DGH Thiago Alexandre e Carlos Henrique.

Investigação começou após localização de corpo carbonizado

A investigação teve início após a localização de um corpo carbonizado, nas proximidades do “fossão” do bairro São Bento, em 31 de julho de 2026. A equipe da DGH foi acionada para atender a ocorrência e, a partir das primeiras diligências, confirmou que se tratava de Cauã Vinícius Castro da Silva.

Segundo João Evangelista, a apuração permitiu reconstruir parte da dinâmica do crime e identificar os envolvidos. O delegado explicou que os investigadores utilizaram informações, monitoramento, análise de imagens e pesquisa de dados para avançar na identificação dos suspeitos.

“A investigação começou a partir das primeiras informações que chegaram ao Plantão Central. A equipe passou a fazer o cruzamento de dados, monitoramento e análise de imagens. A partir desse trabalho, conseguimos identificar os envolvidos e chegar às medidas judiciais que foram cumpridas na operação”, explicou o delegado João Evangelista.

Durante a investigação, os policiais identificaram que a decisão pela morte da vítima teria sido tomada durante uma reunião entre integrantes da organização criminosa.

“A primeira reunião que conseguimos identificar ocorreu na Praça Germano Sampaio, na Zona Oeste de Boa Vista. Eles estavam reunidos e fizeram uma videochamada com integrantes da facção que estavam fora de Roraima. Foi nesse contexto que discutiram a situação da vítima e determinaram a sentença de morte”, detalhou João Evangelista.

Ainda conforme o delegado, após a decisão, a vítima teria sido sequestrada e levada para o bairro São Bento, onde foi executada. Posteriormente, o corpo foi carbonizado.

“Depois dessa decisão, a vítima foi sequestrada e levada para o bairro São Bento, onde ocorreu a execução. Em seguida, os envolvidos atearam fogo no corpo, numa tentativa de destruir os vestígios do crime”, relatou o delegado.

A investigação apontou que o homicídio estaria relacionado à disputa entre facções criminosas. Cauã, que anteriormente teria integrado uma dessas organizações, teria passado a auxiliar um grupo rival.

Polícia identifica envolvidos e cumpre mandados em seis bairros

Na quarta-feira, 26, equipes da DGH, com apoio da GCM, cumpriram as ordens judiciais nos bairros Jardim Olímpico, Cruviana, Laura Moreira, São Bento, Cinturão Verde e Pintolândia. Entre os presos estão três mulheres: K. T. V., 35 anos; K. S. O., 29 anos; P. C. S., 39 anos. Também foram presos quatro homens: C. B. M. S. M., 25 anos; J. H. S. A., 21 anos; J. H. A. N., 37 anos, e R. M. R. O., 29 anos.

Durante as buscas, C. B. M. S. M., de 25 anos, que já possuía mandado de prisão relacionado à investigação do homicídio, também foi preso em flagrante por tráfico de drogas. Com ele, os policiais encontraram uma balança de precisão e uma quantidade de maconha.

Um adolescente de 17 anos, também foi conduzido durante a operação. Com ele foram encontradas maconha e duas balanças de precisão. Segundo a investigação, a residência onde o adolescente estava teria sido utilizada pela facção para realizar o julgamento e decretar a morte da vítima.

Com K. S. O., de 29 anos, e P. C. S., de 39 anos, também foram encontradas porções de maconha. Em razão disso, foi lavrado TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência) por consumo pessoal de drogas.

Investigado também teria sido alvo de tribunal do crime

Durante o cumprimento dos mandados, a equipe identificou ainda uma situação envolvendo um dos investigados pela morte de Cauã. Segundo a investigação, além de possuir mandado de prisão relacionado ao homicídio, ele estaria sendo procurado pela própria facção criminosa após ter fugido de outro “tribunal do crime”, no qual seria a pessoa submetida à execução.

Para João Evangelista, a situação demonstra a dinâmica de violência existente dentro das organizações criminosas.

“É uma dinâmica de violência muito grande dentro dessas organizações. A mesma estrutura que determina a morte de uma pessoa também pode colocar outro integrante como alvo. Esse é um dos aspectos que conseguimos identificar durante a investigação”, ressaltou o delegado.

Investigação qualificada fortalece combate aos homicídios

Durante a coletiva, João Evangelista também apresentou dados relacionados ao trabalho desenvolvido pela DGH nos últimos anos. Segundo ele, a atuação da unidade envolve investigação qualificada, inteligência, monitoramento, análise de dados e integração entre as forças de segurança.

“Não se faz segurança pública sem inteligência. Temos um trabalho técnico, com levantamento de dados, monitoramento, verificação de perfis e dos modos de atuação. É esse conjunto de ações que permite à Polícia Civil avançar nas investigações e dar uma resposta mais efetiva à sociedade”, destacou João Evangelista.

Conforme os dados apresentados na coletiva, foram registrados 95 homicídios em 2024, 104 em 2025 e 63 em 2026, até o momento. No mesmo período, a DGH ampliou o cumprimento de medidas judiciais: foram 16 mandados de prisão e 29 de busca e apreensão em 2024; 34 mandados de prisão e 74 de busca e apreensão em 2025; e, em 2026, até agosto, 34 mandados de prisão e 54 de busca e apreensão. O levantamento demonstra a intensificação do trabalho investigativo, com foco na identificação dos autores, responsabilização dos envolvidos e desarticulação de grupos criminosos.

“Não se trata de uma ação isolada ou do resultado de um único trabalho. É uma atuação contínua, construída ao longo dos anos, com inteligência policial, investigação qualificada e integração entre as forças de segurança”, ressaltou o delegado.

O trabalho investigativo, segundo Evangelista, também conta com a participação da SESP (Secretaria de Segurança Pública), da DRACO (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas) e do NI (Núcleos de Inteligência), ampliando o cruzamento de informações e o acompanhamento das atividades criminosas.

Fortalecimento da estrutura de investigação

A delegada-geral Simone Arruda destacou o fortalecimento da estrutura da DGH e o trabalho desenvolvido pelas equipes para ampliar a capacidade de resposta da PCRR.

“Estamos fortalecendo as equipes e dando melhores condições para que os policiais avancem nas investigações. O objetivo é dar resposta aos casos recentes e também concluir aqueles que ainda estão em andamento”, afirmou Simone Arruda.

A diretora do DHPP, delegada Míriam Di Manso, ressaltou a qualificação dos policiais e a importância do serviço extraordinário autorizado pela gestão para ampliar a capacidade de investigação.

“Temos uma equipe qualificada e que vem buscando aprimorar cada vez mais o trabalho de investigação. O serviço extraordinário também permite avançar nas investigações mais antigas sem comprometer o atendimento dos casos recentes”, ressaltou Míriam Di Manso.

A delegada também destacou a importância da integração entre as forças de segurança para o enfrentamento às organizações criminosas.

“A integração é fundamental. Quando as forças trabalham juntas, com compartilhamento de informações e planejamento, conseguimos fortalecer a resposta ao crime e avançar nas investigações”, comentou a diretora do DHPP.

Procedimentos

Após as prisões, os sete investigados foram conduzidos à sede da DGH, onde foram realizados os procedimentos legais, incluindo o cumprimento dos mandados e a lavratura do APF (Auto de Prisão em Flagrante) no caso relacionado ao tráfico de drogas.

Os presos passaram por exames no IML (Instituto de Medicina Legal) e foram apresentados na Audiência de Custódia.

As investigações continuam para o cumprimento das demais diligências e o completo esclarecimento do homicídio.

Operação Castigare

O nome da Operação Castigare faz referência ao próprio contexto do crime investigado. Segundo a apuração, a vítima foi submetida a uma espécie de “tribunal do crime”, no qual integrantes de uma organização criminosa determinaram uma punição que resultou em sua morte. O termo “Castigare”, que remete a castigo, também representa a resposta dos órgãos de segurança pública e de persecução penal ao crime, deixando claro que cabe à Justiça aplicar as sanções previstas em lei aos responsáveis.

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