
A Escola Estadual Ayrton Senna, localizada no bairro dos Estados, é a 50ª unidade de ensino a receber o projeto “Educar é Prevenir”, promovido pelo Programa de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania (PDDHC) da Assembleia Legislativa de Roraima (ALE-RR). Durante toda a semana, de 24 a 27 de março, alunos, professores e gestores participam de um ciclo de atividades voltadas para a conscientização sobre o tráfico de pessoas e formas de prevenção.
Programação
A programação teve início na segunda-feira (24), com a entrega de materiais informativos, como cartazes, banners e filmes, e a capacitação dos professores e funcionários. Na terça (25), foi a vez dos líderes de turma receberem formação específica para atuarem como multiplicadores da mensagem de prevenção. Na quarta (26), professores e líderes de turma trabalharam com os alunos em sala de aula, promovendo debates e atividades educativas sobre o tema.

Segundo Glauber Batista, coordenador do projeto, a iniciativa de formar os líderes de turma passou a ser central diante do contexto migratório de Roraima. “Especialmente os líderes venezuelanos que estudam nas escolas estaduais. Nosso objetivo é capacitá-los para que estejam atentos a possíveis golpes, fraudes e exploração”, explicou o coordenador.
Para Socorro Santos, diretora do PDDHC, a abordagem integral visa construir uma rede de proteção dentro do ambiente escolar, onde cada membro da comunidade se torna corresponsável no combate às diferentes formas de violência e exploração.

“A escuta, nesse contexto, não é apenas ouvir, mas compreender, acolher e saber como agir sem invadir o espaço do outro, respeitando sua integridade física e emocional. Esse conhecimento é essencial para que toda a escola esteja integrada no combate à violência e na forma de lidar com essas situações”, destacou a diretora.
A diretora do PDDHC ainda reforçou que o combate ao tráfico de pessoas vai muito além de uma simples ação pontual. É uma missão que começou a ser desenhada ainda na década de 1990, quando poucos compreendiam a dimensão deste crime.
“Foi em 1996 que comecei a idealizar esse projeto para as escolas. No início, muitas autoridades não o aceitaram. Quando levamos a proposta para a Assembleia Legislativa, foi necessário escrever e reescrever o projeto diversas vezes para que servisse como base e pudesse ser implementado de maneira eficaz. Embora passemos uma semana na escola, não permanecemos nela o tempo todo”, recordou Socorro.

Rede de apoio
A culminância do ciclo ocorreu nesta quinta-feira (27) com uma roda de conversa entre representantes da Rede de Prevenção ao Tráfico de Pessoas, incluindo a OAB-RR (Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Roraima), PRF (Polícia Rodoviária Federal), Rede um Grito pela Vida, Conselho Tutelar e demais instituições, além da comunidade escolar. O evento marcou o encerramento oficial das atividades na 50ª escola a receber o projeto.
Os palestrantes compartilharam experiências e conhecimentos, estimulando a reflexão e conscientização sobre os riscos e as formas mais comuns do tráfico de pessoas, como trabalho análogo à escravidão, exploração sexual, remoção de órgãos e adoção ilegal. Além disso, abordaram medidas preventivas.
A policial rodoviária Verônica Cizs afirmou que a instituição que representa esteve presente em todas as escolas com a equipe do projeto, contribuindo significativamente para o seu desenvolvimento. Segundo ela, o silenciamento em torno do tema cria uma perigosa ilusão de que o problema não existe. No entanto, a exploração está bem diante de nós, especialmente, com perigo contemporâneo das redes sociais.
“Desde o início, essa parceria tem sido fundamental na prevenção, para que esses jovens e adolescentes não caiam nas armadilhas das falsas promessas do mundo e acabem sendo traficados. Nosso objetivo é alertá-los e conscientizá-los sobre essa realidade, pois muitas vezes temos a falsa impressão de que esse problema não existe em nossa comunidade. Não se fala sobre isso, e as redes sociais também não trazem essa pauta, mas é justamente por meio das redes sociais que muitos jovens estão sendo aliciados para o tráfico e a exploração sexual”, alertou.

Impacto
A diretora da escola, Luciana Bezerra, destacou a importância da iniciativa no contexto da realidade local. Segundo ela, é uma oportunidade valiosa para alertar os alunos que são alvos fáceis dos aliciadores.
“Tem muitos alunos que não têm noção do que seja o tráfico de pessoas, e já aconteceu de, dentro da própria escola, haver casos de aliciamento. É algo muito sério. Às vezes, o convite acontece aqui no Estado por causa do garimpo. Chamam as meninas apenas para trabalhar na cozinha, e elas não têm a real noção do perigo. Por isso, o projeto vem justamente para alertar, mostrar a realidade, não só para elas, mas para toda a comunidade escolar”, disse.
Os próprios estudantes reconheceram a relevância do projeto. Eduardo Rangel, presidente do grêmio estudantil, foi um dos líderes capacitados pelo programa. Em contato direto com os alunos no dia a dia, ele percebeu a importância de disseminar o conhecimento adquirido.
“Agora, me sinto ainda mais preparado para dialogar com eles, orientá-los e contribuir para a conscientização dentro da escola, porque confesso que não tinha conhecimento sobre tráfico humano. Esse projeto veio não apenas para mim, mas também para outros alunos, para abrir os olhos deles sobre esse problema, que é muito sério”, ponderou.

Sobre o projeto ‘Educar é Prevenir’
Criado em 2017, o projeto tem como objetivo conscientizar crianças e adolescentes sobre o tráfico humano, abordando temas como exploração sexual, trabalho análogo à escravidão, remoção de órgãos e adoção ilegal. A iniciativa já percorreu 50 escolas em Roraima, atingindo tanto Boa Vista quanto municípios fronteiriços, como Pacaraima e Bonfim.
Os gestores escolares interessados em receber o projeto podem entrar em contato com o PDDHC, localizado na Rua Coronel Pinto, 524, bairro Centro, ou pelo e-mail traficodepessoas.rr@gmail.com.
Canais de denúncia
Denúncias sobre tráfico de pessoas podem ser feitas anonimamente pelos telefones Disque 100 ou 180. As vítimas também podem procurar atendimento na sede do PDDHC.