Coluna C & T: Testes de sustentabilidade ambiental – Daniel Nascimento-e-Silva

Os testes de sustentabilidade ambiental tem sido uma das dimensões cada vez mais importantes e exigidas no processo de inovação tecnológica. A razão disso é que as tecnologias, em maior ou menor intensidade, exercem algum tipo de impacto sobre os recursos e meio ambientes, de maneira que se torna cada vez mais essencial a identificação desses impactos e suas mensurações, para que se possa saber como lidar com eles e mitigar as suas possíveis consequências danosas. Esses testes representam avaliações com o desafio de medir e apresentar garantias de que as novas tecnologias que estão sendo prototipadas causam impactos menores e não danosos ao meio ambiente, incluindo os seres humanos, durante todo o seu ciclo de vida útil e o tempo após o seu descarte. Isso significa que as preocupações dos cientistas não se restringem apenas à oferta ao ambiente e mercado de uma nova tecnologia que resolva determinados problemas e entregue certos benefícios, mas que ela não compromete a capacidade atual e futuras de suprir suas necessidades. Como consequência, os testes de sustentabilidade ambiental focam três aspectos interconectados: a eficiência, a redução da poluição e o uso responsável dos recursos.

Os testes de sustentabilidade envolvem diversos aspectos ambientais, em conformidade com os componentes da tecnologia a ser entregue, os impactos que causam no espaço de operações e uso e as consequências de seus descartes na natureza. Daí vem que o primeiro grupo de testes foca a identificação de cada etapa do ciclo de vida da tecnologia e os impactos que cada uma pode causar sobre o meio ambiente. Envolve o ciclo de prototipagem e o ciclo de vida útil, o que inclui a extração de matérias-primas, estágios de fabricação, sistemática de distribuição, formas de utilização e estratégia de descarte dos resíduos. Essa sistemática tem sido disciplinada pelo padrão ISO 14040/14044. A avaliação do ciclo de vida (ACV) é complementada pela avaliação de impacto ambiental (AIA), cujo desafio é a identificação e avaliação das possíveis consequências de natureza ambiental, mas também social e econômica, de toda e qualquer proposta de inovação tecnológica. A principal diferença entre a ACV e a AIA é a amplitude do projeto de tecnologia: a AIA se concentra em tecnologias de grandes proporções e impactos, como hidrelétricas, grandes rodovias e ferrovias e aeronaves. A ACV geralmente foca tecnologias como próteses, novos equipamentos, máquinas e procedimentos operacionais de extração de princípios ativos de espécies vegetais. Os fatores avaliados pelos testes de AIA são extremamente preciosos à vida, como a qualidade do ar e da água, impacto sobre a biodiversidade, uso da terra e similares.

Um teste muito importante e que tem sido cada vez mais aprimorado é a verificação de tecnologia ambiental (ETV, da sigla em inglês). Esse teste muitas vezes serve de conexão entre AIA e ACV porque foca o desempenho, através do cálculo da eficiência e eficácia, de uma nova tecnologia. Esses testes são muito rigorosos para medir se os benefícios prometidos por uma tecnologia ou requerida pelo seu público-alvo são precisos e confiáveis.
Dois grupos de testes têm se tornado cada vez mais comuns e, por isso, do conhecimento de cientistas que trabalham com inovação tecnológica. O primeiro é a análise da pegada de carbono, que mede a quantidade das emissões de gases de efeito estufa que uma nova tecnologia é potencialmente capaz de emitir, quando do período de prototipagem, e o quanto ela efetivamente emite (no período de uso pelo público-alvo). O segundo é o impacto no uso de recursos, com foco específico na mensuração da água, solo, ar, energia, recursos florestais e de origem faunística, mas também engloba o uso de materiais biodegradáveis, reciclados e microorganismos.

Os gêmeos digitais são uma das várias tecnologias contemporâneas utilizadas na testagem da sustentabilidade ambiental da inovação tecnológica. Eles ajudam a fazer simulações para realizar, por exemplo, os testes de toxidade e poluição, para aferir o quanto a tecnologia libera de substâncias tóxicas no solo, ar ou água; testes de eficiência e otimização voltados para fazer o máximo de aproveitamento da energia, água e outros recursos com o uso de sensores, atuadores e outros dispositivos inteligentes que reduzem o desperdício; e os testes de gestão de resíduos, para que se estabeleçam procedimentos que produzam o mínimo de resíduos e que sejam sustentáveis, através de esquemas de planejamento, organização, direção e controle. Os gêmeos digitais permitem que se conheça com adequação os impactos da tecnologia em situação real de uso antes, durante e após a sua entrega ao público-alvo.

A variedade e diversidade de testes de sustentabilidade ambiental é muito grande. Contudo, o que a maioria deles mede, o que eles analisam? Em primeiro lugar, a eficiência do uso dos recursos, pois dizem o quanto a tecnologia consumirá de energia, água e outros recursos naturais. O segundo foco são as emissões de gases de efeito estufa e demais tipos de poluentes que a tecnologia vai liberar em suas diferentes etapas de ciclo de vida. O quarto é a geração de resíduos, especificamente os volumes e os tipos, assim como a capacidade de reciclagem e reutilização. O quinto foco é a toxicidade, para identificar e medir a presença e quantidade de substâncias tóxicas na fabricação, uso e descarte. O sexto e último é o impacto na biodiversidade, identificando-se os efeitos nos ecossistemas, flora, fauna e seres humanos.

Os testes de sustentabilidade marcam uma nova era na geração de tecnologias. Suas essencialidades residem no fato de que ajudam a identificar e prevenir danos, mesmo nas mais bem-intencionadas; proporcionam transparência na geração, distribuição, uso e descarte da tecnologia, ajudando a gerar confiança do público-alvo e investidores; auxiliam a tomada de decisão sobre a escolha de tecnologias cada vez mais sustentáveis, evitando-se as que causam danos de longo prazo; e possibilitam a identificação prévia de problemas no ciclo de vida da tecnologia, para que se encontrem formas de melhorar e otimizar o seu desempenho ambiental.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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