Coluna Voz & Valor: A gentileza que devemos a nós mesmos – por Carol Padilha

A gentileza que devemos a nós mesmos

Uma reflexão inspirada na música “Seja Gentil”, de Kell Smith

Você já percebeu como, muitas vezes, somos compreensivos com os erros dos outros, mas implacáveis com os nossos? Aconselhamos quem está cansado a descansar, dizemos a quem falhou que errar faz parte do aprendizado e lembramos às pessoas que ninguém precisa ser forte o tempo todo. Mas, quando somos nós que enfrentamos dificuldades, parece que a compreensão desaparece e dá lugar à cobrança.

Exigimos de nós mesmos respostas imediatas, resultados constantes e uma força que nem sempre temos. Transformamos erros em provas de incapacidade, pausas em sinais de fraqueza e dificuldades em motivos para questionar nosso próprio valor.

Foi essa contradição que me levou a refletir sobre a gentileza que oferecemos aos outros e, tantas vezes, negamos a nós mesmos. A música “Seja Gentil”, de Kell Smith, reforça essa reflexão ao nos convidar a desacelerar, reconhecer nossos limites e compreender que nem todos os dias serão bons — e que isso não diminui quem somos.

Vivemos em uma sociedade que valoriza resultados, produtividade e superação. Somos incentivados a continuar mesmo quando estamos exaustos, a demonstrar segurança mesmo quando temos dúvidas e a encontrar respostas mesmo quando ainda estamos tentando compreender as perguntas.

Nesse cenário, até a autocobrança pode ser confundida com virtude. Acreditamos que precisamos ser duros conosco para evoluir, como se reconhecer nossas fragilidades fosse abrir espaço para o fracasso.

Mas será que precisamos nos ferir para crescer?

Pense em alguém que comete um erro no trabalho e passa o restante do dia questionando a própria competência. O que poderia ser uma oportunidade de aprendizado transforma-se em uma sentença sobre quem essa pessoa acredita ser.

Quantas vezes fazemos o mesmo conosco?

Existe uma diferença entre reconhecer que erramos e acreditar que somos um erro

Ser gentil consigo não significa fugir das responsabilidades, ignorar falhas ou desistir de melhorar. Significa compreender que podemos corrigir nossas escolhas sem diminuir nosso valor como pessoas.

A maturidade emocional começa a se manifestar quando entendemos que não precisamos escolher entre acolhimento e responsabilidade. Podemos reconhecer nossas limitações sem nos acomodar, admitir que estamos cansados sem nos considerar fracos e recomeçar sem tratar nossa história como um fracasso.

Essa compreensão também transforma a maneira como olhamos para os outros. Afinal, não conhecemos todas as batalhas que alguém enfrenta, assim como nem sempre conseguimos explicar as nossas.

Isso não significa concordar com tudo, tolerar desrespeitos ou abrir mão de limites. Gentileza não é ausência de firmeza. É a escolha de não transformar a firmeza em crueldade.

Talvez o desafio esteja justamente em aprender a sustentar duas coisas ao mesmo tempo: o compromisso de evoluir e o respeito por quem somos durante o caminho.

No fim, fica uma pergunta que vale tanto para os dias difíceis quanto para aqueles em que acreditamos precisar provar alguma coisa ao mundo:

Se você tratasse a si mesmo com a mesma generosidade com que trata os outros, que tipo de relação estaria construindo consigo?

Às vezes, tratar a nós mesmos com bondade é o primeiro passo para interromper ciclos de vergonha, culpa e julgamento que carregamos há anos.

Respire. Acolha-se. Agradeça pelo que permanece e aprenda com o que passou.

Seja gentil com os outros, mas não se esqueça de incluir você nessa gentileza. Afinal, você também merece a compreensão que tantas vezes oferece ao mundo.

(*) Carol Padilha é Empreteca, Administradora, Empreendedora, Dama Comendadora, Especialista em Gestão, Neurociência para Negócios, Psicologia Positivia. Apaixonada por ajudar pessoas a resolverem problemas complexos e a enxergarem sentido em suas jornadas.

Nota de Rodapé: Nesta coluna, trago reflexões que unem Gestão, Empreendedorismo, comportamento humano e experiências do cotidiano para inspirar você, leitor, a atravessar seus desafios com mais consciência, coragem e sentido.

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