Coluna Voz & Valor: In Memoriam de Rosalina Padilha – Carol Padilha

Uma homenagem pessoal à memória de Rosalina Padilha, escrita por Carol Padilha.

Rosalina Padilha: uma vida dedicada a ensinar, servir e recomeçar

Professora, gestora pública, mãe e avó, dedicou sua vida à educação, ao serviço na comunidade e à família, deixando um legado que permanece na história de Amajari e na memória de todos que tiveram o privilégio de conviver com ela.

Se existia alguém que não aceitava que um aluno desistisse do próprio futuro, esse alguém era a professora Rosalina Padilha.

Quando algum discente fugia da sala de aula, ela ia buscá-lo e o trazia de volta. Acreditava que a educação era capaz de mudar o rumo de uma vida e fazia questão de transmitir essa convicção: “Você vai estudar, só o estudo pode mudar a sua vida.”

Essa era Rosalina: uma mulher que transformava suas convicções em atitudes. Hoje, ao registrar sua trajetória, escrevo também como filha de criação, a partir do lugar de quem recebeu seus ensinamentos desde os seis anos de idade e carrega consigo a história de uma mulher que me ensinou muito sobre a vida.

Foto do acervo pessoal, 2019. Registro do dia em que fui homenageada na faculdade com a Medalha Alumni Diamante, reconhecimento que dediquei à minha mãe, em gratidão por tudo o que fez por mim. Ao meu lado, meus filhos Antônio e Emília.

Da sala de aula à construção de Amajarí

Nascida em 25 de junho de 1952, em Mirandópolis, São Paulo, Rosalina chegou a Roraima no final da década de 1980. Na então Vila Brasil, hoje município de Amajarí, começou a lecionar língua portuguesa na antiga escola José Pereira de Melo (JPM).

Para ela, ensinar ia além de transmitir conteúdos. Acolhia as dúvidas dos estudantes, conversava sobre sonhos e escolhas profissionais e insistia para que não desistissem dos estudos. Muitos seguiram diferentes profissões, levando consigo os ensinamentos da professora.

Ana Cláudia da Silva Bezerra, sua ex-aluna e hoje professora do Atendimento Educacional Especializado (AEE), reconhece a influência da professora em sua formação:

“Rosalina foi uma das minhas grandes inspirações. Ela contribuiu não apenas para minha formação acadêmica, mas também para meus valores, meu caráter e minha escolha profissional. Em 2009, registrei minha gratidão a ela no memorial do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Roraima (UFRR). Hoje, reconheço que seu legado continua vivo na profissional que me tornei e em cada vida que tenho a oportunidade de alcançar por meio da educação. Minha eterna gratidão e admiração à minha querida professora!”, recordou Ana Cláudia.

A generosidade da minha mãe também permanece na memória dos moradores da Vila Brasil. Valneide Mariano, sua ex-aluna e vizinha, recorda com carinho os gestos de cuidado com as crianças da comunidade:

“Eu sempre a admirei por ser uma mulher sábia e muito humana. No dia das crianças, ela costumava preparar comidas deliciosas e distribuir para a criançada da vila. São lembranças que guardo com muito carinho e que mostram o quanto ela se preocupava com as pessoas.”

Para Antônio Valdir, conhecido como Didi, ex-aluno, Rosalina foi uma referência profissional e humana:

“Ingressei na vida pública graças às oportunidades que ela me proporcionou. O que ela era em casa, também era no trabalho: uma pessoa acolhedora, generosa e comprometida. Sua casa estava sempre de portas abertas para nós.”

Sua atuação também se destacou na gestão pública. Entre 1997 e 2001, durante o governo do então prefeito Alberto Santiago, foi a primeira secretária responsável pelas áreas de Educação, Saúde e Assistência Social, contribuindo para a organização dos serviços e a ampliação do acesso às políticas públicas, inclusive nas comunidades rurais e indígenas. Também participou da mobilização em torno do plebiscito de 1995, que promoveu o debate sobre a emancipação de Vila Brasil e suas perspectivas de desenvolvimento.

Foto acervo pessoal – da direita para esquerda: Sec. Hélio, Sec. Rosalina Padilha, Prefeito Alberto Santiago e a primeira dama IzeteSantiano – final dos anos 90, Amajarí.

A vice-prefeita de Amajari, Gleyce Mota, destaca a importância dessa trajetória para a memória do município:

“Rosalina Padilha faz parte da história de Amajari. Sua trajetória como professora e secretária municipal de Saúde, Educação e Assistência Social foi marcada pelo compromisso e pela dedicação à população amajariense. Seu legado ultrapassa os cargos que ocupou e representa também a força das mulheres que contribuíram para a construção das bases administrativas e sociais do município. Sua história merece ser preservada na memória do nosso povo.”Afirmou Gleyce.

Ao reunir esses depoimentos, revivi lembranças felizes da infância e senti a dimensão do impacto que minha mãe deixou na vida de tantas pessoas. Tive a certeza de que seu tempo de vida na terra não foi em vão.

Quando a vida exigiu um novo começo

Em 19 de julho de 2001, durante uma conferência de saúde em Boa Vista, minha mãe sofreu um AVC isquêmico que provocou paralisia parcial e mudou profundamente sua vida. Mas as limitações não apagaram sua determinação nem seu desejo de viver com autonomia.

Após a reabilitação, voltou para casa, em Amajari, adaptou sua rotina e reaprendeu atividades do dia a dia. Voltou a caminhar com dificuldade e via a cadeira de rodas como um apoio, não como uma sentença de vida.

Acervo pessoal, 2001 – Alta da Reabilitação

Acompanhar sua trajetória foi uma das maiores lições que recebi. Ao levá-la para consultas, fazer compras ou simplesmente passear, aprendi que a verdadeira força está em encontrar maneiras de seguir em frente, mesmo quando a vida muda nossos caminhos.

Guardo com carinho as palavras que ela me disse quando me viu após o AVC:

“Oh, minha filha, não chore. Eu não vou morrer, ainda tenho que terminar de criar você. Deus me deixou viva para isso. Vai ficar tudo bem.”

Minha mãe me ensinou sobre coragem, amor e a força de quem ainda tinha motivos para lutar e seguir vivendo.

Acervo pessoal, 2018 – em sua casa no Amajarí.

A mulher que existia para além dos cargos

Minha mãe era uma mulher de palavra, disciplinada, generosa e acolhedora. Sua casa, na Vila Brasil, era ponto de encontro da família e amigos, especialmente nas festas de fim de ano, quando todos se reuniam para preparar as comidas e manter vivas tradições como o pão trançado com frutas cristalizadas.

Acervo pessoal, Natal de 2013, Amajarí. Vovó Rosalina com os netos e o genro.

Rainor Cruz, pai dos meus filhos e genro dela, recorda com carinho esses momentos:

“Guardo com carinho os encontros de fim de ano na Vila Brasil, quando a família se reunia em momentos de alegria, união e afeto. São recordações que permanecerão para sempre na minha memória e no meu coração. Saudades!”

Com os netos, uma vez professora, sempre professora. Ajudava nas tarefas escolares, incentivava a leitura, ensinava a rezar todas as manhãs e fazia bolos de vó.

Gabriel e Antônio guardam as lembranças da rotina e dos ensinamentos que compartilhavam com ela:

“Lembramos das manhãs em que a encontrávamos lendo e rezando, do cheirinho dela, dos livros, das risadas até perder o fôlego e da comida preparada com amor. A vovó sempre nos ensinava coisas novas. São lembranças que levaremos para sempre em nossos corações.”

Emília Vitória, a neta mais nova, recorda os detalhes que tornavam a avó única:

“Lembro do cheirinho único dela, do aconchego do seu quarto, da casinha onde cuidava das plantas e conversava com os animais. Guardo as comidas feitas com carinho, as conversas sobre a vida, o conselho de que um Bis por dia era suficiente e a alegria dela com o bolo de aniversário que fizemos. São lembranças que levarei comigo para sempre.”

Na minha infância, eu me sentava ao lado dela enquanto corrigia provas ou escrevia projetos. Curiosa, perguntava o que estava fazendo e por quê. Ela sorria e dizia: “A menina dos porquês chegou”.

Mesmo ocupada, interrompia suas atividades para me ouvir. Com ela, aprendi que escutar com atenção é uma forma de acolher e fazer alguém se sentir especial.

Quando eu errava, ela me ensinava a refletir sobre minhas escolhas, assumir responsabilidades e seguir em frente sem abrir mão dos meus valores.

Cresci, me formei e construí minha família e carreira. Hoje, na educação corporativa e no desenvolvimento territorial, quando tenho momentos difíceis, me pergunto o que ela faria diante de determinadas decisões.

Uma história que permanece

Minha mãe, em 22 de outubro de 2026, aos 74 anos, encerrou sua última aula nesta vida. O quadro ficou em silêncio, os livros repousaram e a professora que tantas vezes ensinou caminhos precisou se despedir da sala de aula terrena.

Na grande sala de aula da vida, seus ensinamentos permanecerão gravados nas paredes dos nossos corações.

A aula terminou, minha mãe descansou, e suas lições continuarão por muitas gerações.

Com VOZ & VALOR, em memória de Rosalina Padilha.

Minha PÃE, minha velha, minha MÃE! Para sempre vamos te amar.

(*) Carol Padilha é Empreteca, Administradora, Empreendedora, Dama Comendadora, Especialista em Gestão, Neurociência para Negócios, Psicologia Positivia. Apaixonada por ajudar pessoas a resolverem problemas complexos e a enxergarem sentido em suas jornadas.
Nota de Rodapé: Nesta coluna, trago reflexões que unem Gestão, Empreendedorismo, comportamento humano e experiências do cotidiano para inspirar você, leitor, a atravessar seus desafios com mais consciência, coragem e sentido

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