Coluna Voz & Valor – por Carol Padilha

Entre a arena e a arquibancada: uma reflexão sobre discernimento

Há uma ideia em A Coragem para Liderar, de Brené Brown, que sempre me faz refletir sobre a forma como recebemos críticas, especialmente quando estamos em posições de liderança.

Ao falar sobre coragem e vulnerabilidade, a autora retoma a metáfora da arena, inspirada no célebre discurso de Theodore Roosevelt. A ideia é simples, mas profundamente provocadora: existe uma diferença entre quem está disposto a entrar na arena, se expor, tentar, errar e assumir as consequências, e quem permanece na arquibancada apenas observando.
Quem está na arena se expõe.

Toma decisões sem ter todas as respostas. Assume riscos. Erra. Acerta. É questionado. É julgado. Algumas vezes, apanha. E, no dia seguinte, precisa voltar para a arena e continuar.

Quem está na arquibancada observa.

E observar também tem valor. Quem está de fora pode enxergar ângulos que quem está no centro da situação não consegue perceber. Pode fazer perguntas importantes, identificar pontos cegos e oferecer uma perspectiva necessária.

Por isso, a metáfora da arena não deveria ser usada para desqualificar quem critica.

Estar na arena não torna ninguém automaticamente certo. E estar na arquibancada não torna ninguém automaticamente irrelevante.

A questão é outra: que tipo de voz estamos escolhendo ouvir?
Vivemos em uma época em que todos têm opinião sobre tudo: sobre a forma como você lidera, trabalha, empreende e toma decisões.

Nem toda crítica é injusta. Nem todo elogio é verdadeiro. E nem toda opinião precisa ter o mesmo peso.

Talvez uma das maiores competências que precisamos desenvolver, tanto na vida quanto na liderança, seja o discernimento.

Saber ouvir sem absorver tudo. Considerar sem obedecer. Reconhecer um erro sem transformá-lo em identidade.

E, principalmente, saber diferenciar feedback de julgamento.

O feedback nasce do desejo de contribuir. O julgamento, muitas vezes, nasce apenas da necessidade de apontar o que o outro fez de errado.

Existe uma diferença enorme entre alguém que diz:

“Eu estou aqui com você. Vi o que aconteceu. Vamos pensar juntos em como fazer melhor.”

e alguém que, da arquibancada, simplesmente afirma:
“Eu teria feito diferente.”

O primeiro se coloca em relação com aquilo que está sendo construído. O segundo apenas avalia o resultado.

É por isso que a confiança também tem um preço.

Confiar em alguém significa aceitar que essa pessoa terá liberdade para fazer escolhas que nem sempre faríamos da mesma maneira. Significa reconhecer que autonomia envolve risco, que responsabilidade envolve a possibilidade de erro e que nenhuma relação de confiança é construída sem vulnerabilidade.

Nas organizações, isso é ainda mais evidente.

Quando não confiamos, aumentamos o controle. Criamos mais regras, aprovações, conferências e burocracia. Tentamos eliminar o risco controlando cada movimento.

Mas existe um paradoxo:

quanto mais precisamos controlar alguém, menos estamos desenvolvendo sua capacidade de assumir responsabilidade.

Confiar, portanto, não significa ser ingênuo.

A confiança saudável não dispensa critérios, clareza, acompanhamento ou responsabilidade. Ela cria espaço para que as pessoas possam decidir, experimentar, aprender e responder pelas próprias escolhas.

Um líder que confia não é aquele que fecha os olhos para os erros.

É aquele que consegue dizer:

“Eu confio em você o suficiente para permitir que você faça. E confio em nossa relação o suficiente para que possamos conversar quando algo não sair como esperado.”

Talvez seja por isso que liderar seja, em grande medida, aprender a permanecer na arena sem se tornar refém da arquibancada.

Quem lidera estará inevitavelmente exposto. Será interpretado por pessoas que conhecem apenas parte da história. Será criticado por quem não conhece todas as variáveis. Será elogiado por alguns e incompreendido por outros.

Faz parte.

Não podemos escolher todas as vozes que chegarão até nós.

Mas podemos escolher quais vozes terão autoridade sobre nós.

E essa escolha exige coragem.

Antes de permitir que uma crítica determine como enxergamos a nós mesmos, talvez valha perguntar:

Essa pessoa está me oferecendo um espelho ou apenas uma pedra?

O espelho pode revelar algo que precisamos enxergar.
A pedra apenas machuca.

Mas existe uma pergunta ainda mais importante:

O que farei com aquilo que ouvi?

Porque coragem não é rejeitar a crítica. É permanecer suficientemente aberto para considerar que talvez exista algo a aprender, sem permitir que a opinião de alguém determine o nosso valor.

É ter humildade para reconhecer um ponto cego. Maturidade para mudar de direção quando necessário. E firmeza para continuar quando sabemos por que escolhemos determinado caminho.

No fim, talvez a verdadeira coragem para liderar esteja justamente nesse equilíbrio: ter humildade suficiente para ouvir a arquibancada e coragem suficiente para continuar na arena.

Estar na arena não dá a ninguém o monopólio da razão. Mas estar disposto a entrar nela revela algo que a simples observação não consegue revelar: compromisso com aquilo que está sendo construído.

Todos nós, em algum momento, estaremos na arena.

Na liderança. No trabalho. Nos negócios. Nas relações. Na vida.

Vamos errar, acertar, decepcionar e ser decepcionados. Vamos ouvir críticas que farão sentido e outras que não farão.

E talvez amadurecer seja aprender que não precisamos responder a todas elas.

Precisamos apenas escolher com cuidado quem merece caminhar conosco, quem merece ser ouvido e quais vozes merecem permanecer dentro de nós.

Porque liderança não é permanecer intocável.

É ter coragem suficiente para continuar se colocando em jogo.

E, quando alguém quiser avaliar o nosso desempenho na arena, talvez a pergunta mais honesta seja:

Você está apenas assistindo ou está disposto a entrar na arena comigo?

(*) Carol Padilha é Empreteca, Administradora, Empreendedora, Dama Comendadora, Especialista em Gestão, Neurociência para Negócios, Psicologia Positivia. Apaixonada por ajudar pessoas a resolverem problemas complexos e a enxergarem sentido em suas jornadas.
Nota de Rodapé: Nesta coluna, trago reflexões que unem Gestão, Empreendedorismo, comportamento humano e experiências do cotidiano para inspirar você, leitor, a atravessar seus desafios com mais consciência, coragem e sentido.

Veja também

Topo