Coluna Voz & Valor – por Carol Padilha

Caroebe, sabores e memórias: quando um território revela o próprio valor

Você já esteve em um lugar que, depois de conhecê-lo, despertou em você a vontade de voltar — não sozinho, mas levando quem ama?

Foi exatamente isso que aconteceu comigo em Caroebe.

Fui conhecer uma rota turística. Voltei pensando em valor.

Durante um fim de semana, vivi a Rota Caroebe de Todos os Sentidos: Sabores, Natureza e experiências que conectam você ao território. Caminhei entre pés de cacau, ouvi histórias de quem há décadas cultiva a terra, conheci uma tradição familiar transformada em renda, entrei nas águas do Jatapu e, diante de uma cachoeira, encontrei alguns minutos de silêncio que não estavam previstos em roteiro algum.

Foi uma experiência turística, mas não foi apenas sobre turismo.

Ela me deixou uma pergunta:

O que faz um território perceber que aquilo que sempre esteve diante dos seus olhos pode ter um valor ainda não revelado?

Há lugares que precisam criar novos atrativos.

Outros precisam apenas aprender a enxergar os que já possuem.

É justamente a partir desse olhar que vem sendo construída a Rota Caroebe de Todos os Sentidos, um produto turístico desenvolvido pelo SEBRAE Roraima em parceria com a Prefeitura de Caroebe e a comunidade local, com a participação de agências de viagens e da imprensa.

Nessa foto temos: Diário do turismo, FolhaBV, Rede Amazônica, TV Ativa, TV Norte, Trekking Roraima Turismo, Roraima Adventures, Estrella Turismo, futura Advetures, Rota Norte Viagens, Analistas do Sebrae-RR, consultores do Turismo e de Pesca esportiva. – Foto: Ascom | Sebrae-RR

O cacau já estava ali. A novidade é o olhar

Na rota do Cacau & Prosa, no Sítio São Jorge, conheci Seu Virgulino.

São cerca de quatro décadas dedicadas ao cultivo do cacau. Enquanto caminhávamos pelo plantio, ele contava sua história. Ao nosso redor, pés de cacau, bananeiras, mata e uma imensa samaúma, com raízes que pareciam avançar pela terra em todas as direções.

Experimentamos o cacau ainda na fonte e acompanhamos parte do processo que transforma o fruto em amêndoa.

O cultivo já fazia parte da vida daquele lugar. A história de seu Virgulino vinha sendo construída havia décadas.

A novidade é o olhar.

Quando alguém chega para conhecer aquele cenário, o fruto deixa de ser apenas produto. Ganha contexto, rosto, voz e identidade.

Foi isso que o Cacau & Prosa me deixou: a sensação de que desacelerar também é uma forma de conhecer.

Gravação de documentário sobre o cultivo do cacau. – Foto: Arquivo Pessoal.

Há sabores que atravessam gerações

Na rota Queijos & Memórias, no Sítio Deus é Pai, conheci outra forma de transformar conhecimento em experiência.

Dona Isabel recebeu dos pais o saber de fazer queijo e hoje o transmite às filhas e ao neto. Uma tradição familiar que se tornou também fonte de renda e parte da identidade daquela família.

Acompanhamos a produção e provamos diferentes sabores. Mas o que se sente vai além do paladar.

Há herança, trabalho, afeto e pertencimento.

O queijo carrega uma história que não está escrita na embalagem.

Quando uma família compartilha com o visitante aquilo que aprendeu dentro de casa, aproxima dois mundos: quem produz e quem deseja conhecer.

Há coisas que alimentam o corpo. Outras alimentam a memória.

Produtora Rural Dona Isabel, suas filhas Cristina e Cristiane e o neto no sítio Deus é Pai – Distrito de Entre Rios. – Foto: Arquivo Pessoal.

Há lugares que pedem silêncio

Na Rota Pesca & Cachoeira no Lago do Jatapu vivi uma das experiências mais extraordinárias.

O lago, as pedras, a floresta, as aves, a água, os peixes e a cachoeira.

Ali, a paisagem não precisava ser explicada.

Entrei na água, sentei nas pedras e escutei a queda-d’água.

Por alguns instantes, não pensei em trabalho, agenda ou compromissos.

Apenas contemplei.

Abri os braços e senti liberdade. Senti presença. E uma sensação íntima de conexão com Deus.

Naquele momento, a cachoeira deixou de ser apenas um atrativo.

Foi encontro, pausa, entrega.

E foi ali que nasceu uma vontade muito simples:

Eu quero voltar com meus filhos.

Quero vê-los entrando naquela água, conhecendo aquele lugar e criando suas próprias memórias e conexões.

Porque existe algo revelador no desejo de retornar: ao vivenciar uma experiência prazerosa, você já começa a imaginar quem gostaria de ter ao seu lado na próxima vez.

Café da tarde com iguarias artesanais. – Foto: Arquivo Pessoal.

Caroebe pode ampliar sua própria história

Caroebe já tem uma identidade.É a Terra da Banana.

E não precisa deixar de ser. A banana continua contando uma parte importante de sua história, enquanto o cacau abre novas possibilidades. O Lago do Jatapu amplia o horizonte da pesca esportiva. Florestas, rios e cachoeiras apontam para o ecoturismo. Os produtores podem transformar conhecimento em experiência. A gastronomia pode fazer parte da narrativa do território.A própria cidade também participa dessa jornada, com lugares como a Toca do Peixe, suas praças e estrutura para quem chega a trabalho e quer manter sua rotina e qualidade de vida.

O que muda é a maneira de perceber, organizar e comunicar tudo isso.

Uma propriedade rural pode receber visitantes. Uma tradição pode gerar renda. Um restaurante pode fazer parte do percurso. Um guia pode encontrar uma nova oportunidade.

Quando o visitante chega, sua presença ultrapassa o atrativo. Alcança o posto de combustível, o restaurante, o comércio, a hospedagem, o artesão, entre outros.

O dinheiro circula. A oportunidade se espalha.

Caroebe pode continuar sendo Terra da Banana e, ao mesmo tempo, ser reconhecida pelo cacau, pela pesca esportiva, pela gastronomia, pelo ecoturismo e pelas experiências que aproximam o visitante das pessoas e do lugar.

Não é uma troca de identidade.É expansão e diversidade na economia.

Cachoeira do Lago Jatapú. – Foto: Arquivo Pessoal.

Todo valor precisa de futuro

E existe uma pergunta que não pode ser ignorada:

Como transformar natureza em oportunidade sem transformar a natureza em algo descartável?

O Lago doJatapu pode gerar renda. O tucunaré pode atrair visitantes. As cachoeiras podem movimentar o turismo. Mas tudo isso só continuará sendo oportunidade se continuar existindo.

Em 2025, Caroebe instituiu a Lei Municipal nº 298, proibindo a pesca com finalidade comercial do tucunaré e do trairão e permitindo a pesca esportiva na modalidade pesque-e-solte. A iniciativa demonstra uma preocupação com a preservação dos recursos naturais que fazem parte desse território.

Desenvolvimento não pode ser apenas sobre o que conseguimos extrair de um lugar hoje.

Também precisa considerar o que queremos encontrar nele amanhã.

Pescador esportista, Tiago Papan conduzindo a experiência guiada de pesca ao Tucunaré no Lago do Jatapú. – Foto: Arquivo Pessoal.

O extraordinário pode estar mais perto do que imaginamos

Caroebe me fez pensar em uma espécie de cegueira provocada pelo hábito.

A gente se acostuma com a paisagem, com o sabor, com o caminho, com aquilo que está no quintal. E, justamente por estar tão perto, deixa de perceber o quanto pode ser extraordinário.

Isso vale para territórios, mas também para empresas, pessoas e oportunidades.

Quantas vezes procuramos algo novo sem perceber o que já temos?

Quantas vezes chamamos de comum aquilo que só precisava ser visto por outros olhos?

Um território não precisa necessariamente inventar valor.

Muitas vezes, precisa aprender a enxergar, organizar e contar o valor que já possui.

Provavelmente esse seja um dos grandes desafios do desenvolvimento territorial: reconhecer oportunidades antes que elas precisem ser inventadas.

Caroebe começa a fazer isso.

Iguarias do restaurante Toca do Peixe, na cidade de Caroebe. – Foto: Arquivo Pessoal.

A Rota Caroebe de Todos os Sentidos é mais do que um caminho entre propriedades, rios, sabores e cachoeiras. É uma possibilidade de olhar para o território de outra maneira.

A Rota Cacau & Prosa te convida a desacelerar.

A Rota Queijos & Memórias, a se conectar.

A Rota Pesca e Cachoeiras a contemplar e estar presente.

Juntas, elas revelam que um território também pode ser vivido por todos os sentidos.

Não foi a primeira vez que estive a trabalho em Caroebe. Mas foi a primeira vez que saí de Caroebe querendo voltar com meus filhos.

Essa experiência, de alguma maneira, me atravessou.

E talvez seja justamente nesse momento que um território revele seu verdadeiro valor: quando aquilo que sempre fez parte de sua paisagem passa a ser percebido, vivido e lembrado por quem chega.

Como uma cidade de pouco mais de 10 mil habitantes, que já visitei tantas vezes, conseguiu, em um único fim de semana, despertar em mim uma conexão tão intensa a ponto de eu querer voltar com a minha família?

A resposta, para mim, está justamente no que a experiência revelou:

Quando aprendemos a valorizar o que já temos e a comunicar esse valor para o mundo, aquilo que parecia comum pode se transformar em destino, oportunidade e memória afetiva.

(*) Carol Padilha é Empreteca, Administradora, Empreendedora, Dama Comendadora, Especialista em Gestão, Neurociência para Negócios, Psicologia Positivia. Apaixonada por ajudar pessoas a resolverem problemas complexos e a enxergarem sentido em suas jornadas.
Nota de Rodapé: Nesta coluna, trago reflexões que unem Gestão, Empreendedorismo, comportamento humano e experiências do cotidiano para inspirar você, leitor, a atravessar seus desafios com mais consciência, coragem e sentido

Veja também

Topo