
Os protótipos ambientais buscam evidenciar os impactos que as tecnologias causam em seus ambientes de operação e, inversamente, os que sofrem com os lugares onde vão operar e ser manuseados. Aqui vale chamar a atenção para o fato de que esses impactos são indesejados e causam danos ao ambiente de operação, como efeito do uso da futura tecnologia, tais como os que danificam ou comprometem a entrega dos benefícios da tecnologia ao seu público-alvo. Esse tipo de protótipo enfrenta o desafio de reconhecer essas externalidades negativas para eliminá-las ou mitigar seus efeitos, de modo que a tecnologia a ser entregue seja dotada da segurança, usabilidade e eficácia necessárias. De forma semelhante aos ajustes necessários nos outros tipos de protótipos, os principais aspectos da prototipagem ambiental a serem considerados nos ajustes e reajustes são os relacionados à validação técnica e funcional, ao feedback dos usuários e à integração do ambiente com os sistemas existentes. A diferença reside, portanto, nas maneiras de mitigar os impactos mútuos entre a futura tecnologia e o seu ambiente de operação.
Toda tecnologia, em maior ou menor grau, causa impactos nocivos sobre o seu ambiente de operação, ainda que quase sempre sejam desconhecidos pelos cientistas que a produziram e por seus usuários, clientes ou consumidores. Felizmente, grande parte dessas tecnologias tem seus efeitos colaterais quase imperceptíveis em seus efeitos imediatos e próximos; contudo, quando se amplia a visão contextual da tecnologia, outros aspectos nocivos podem ser percebidos, como o impacto ambiental e sobre os recursos naturais. A produção e a operação de tecnologias, principalmente quando são produzidas em grande escala, consomem uma grande variedade e quantidade de recursos oriundos da natureza, como energia, água, minérios, e outros, que emitem gases de efeito estufa, geram poluição do ar e da água e resíduos líquidos e sólidos, como os próprios lixos eletrônicos. Isso significa, por exemplo, que um inofensivo brinquedo didático a ser utilizado por crianças da educação infantil pode gerar, em seu entorno, impactos nocivos, da mesma forma que sujidades, como aerossóis de poeira, podem comprometer o funcionamento de tecnologias sensíveis a esses tipos de resíduos. A prototipagem, nesse nível, precisa ser capaz de identificar essas externalidades para realizar os ajustes e reajustes necessários.
Um segundo grupo de externalidades que os protótipos tecnológicos podem causar em seu ambiente refere-se ao ser humano, individual ou coletivo. O uso excessivo ou inadequado da tecnologia pode causar problemas de saúde mental (como ansiedade, tecnoestresse e dependência digital), isolamento social e problemas ergonômicos, gerando impactos graves na saúde e na sociedade. Os riscos de segurança, por sua vez, decorrem do fato de que as tecnologias, mesmo na fase de prototipagem, muitas vezes estão sujeitas a falhas, mau funcionamento, pirataria e à geração de resultados inesperados, que causam impactos diretos nas operações de criação tecnológica. Também há que se considerar sempre as possibilidades de que a tecnologia em gestão poderá, em sua utilização, gerar impactos econômicos e trabalhistas indesejados, como o desemprego estrutural decorrente da redução da necessidade de certas habilidades e funções que a tecnologia poderá vir a executar. Muitas vezes, portanto, já durante a fase de prototipagem, uma das formas de ajustes e reajustes a serem consideradas é a adaptação constante e o desenvolvimento de novas competências dos profissionais a serem impactados.
Os impactos que as tecnologias causam sobre o ambiente podem ser classificados como imediatos (sobre o entorno da tecnologia), mediados (no ambiente físico onde a tecnologia será hospedada, como um hospital ou hidrelétrica) ou estendidos (que vão além da organização, como toda a cadeia de distribuição ou social, como no caso das tecnologias que causam desemprego). É mais ou menos o que acontece no processo inverso, em que os ambientes de operação exercem pressão sobre a tecnologia futura. Neste caso, há os impactos da natureza e da legislação (estendidos), os oriundos da própria organização e de sua infraestrutura, e os do ambiente físico restrito, onde a futura tecnologia será instalada.
O ambiente externo também impõe restrições e desafios que exigem ajustes e reajustes do protótipo. Há limites biofísicos e de recursos, dado que o fornecimento de insumos (como terras raras e energias) é finito, assim como a capacidade de absorção de rejeitos, o que pode comprometer a viabilidade a longo prazo. Leis e políticas governamentais (ambientais, trabalhistas, de dados etc.) restringem designs e componentes, o que exige ajustes e reajustes. A cultura social e organizacional, com suas normas e valores, pode provocar resistência às mudanças, afetando a aceitação e o sucesso da tecnologia. A infraestrutura da organização e do próprio setor onde a tecnologia futura será hospedada também pode precisar de ajustes e reajustes para ser integrada à realidade da organização ou da sociedade, fazendo com que a infraestrutura antiga seja modificada ou substituída para que os benefícios esperados pela tecnologia sejam entregues.
A prototipagem ambiental é um esforço que cientistas e stakeholders precisam realizar para ver e compreender a tecnologia em sua dimensão holística e integral, em interação com seus diversos ambientes. Há tecnologias cujos impactos são majoritariamente gerados no seu entorno; outras causam impactos no seu ambiente mediato; e há as que produzem efeitos em espaços geográficos ampliados. De forma inversa, há tecnologias que sofrem impactos na mesma ordem, do ambiente mais distante ao seu entorno imediato de operação. Tecnologias baseadas em princípios que ferem valores sociais, por exemplo, precisam ser ajustadas e reajustadas para que os benefícios que entreguem compensem os riscos aos seus valores, sob o ponto de vista da sociedade que as rejeita. Esse tipo de prototipagem foca na viabilidade técnica, mas coloca na mesma ordem de importância a sustentabilidade social e ambiental, principalmente ajustando os designs, componentes e funcionamentos de modo que possam coexistir de forma harmônica e benéfica com as restrições do seu ambiente operacional.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)